"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

sábado, 4 de julho de 2015

Clarice Lispector e A hora da Estrela

A hora da Estrela
Clarice Lispector

O romance “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, foi publicado pela Francisco Alves Editora, 17ª; edição, da qual foram extraídas as citações utilizadas na análise.
Rodrigo S.M., narrador onisciente, conta a história de Macabéa, personagem protagonista, vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde vivia com mais quatro colegas de quarto, além de trabalhar como datilógrafa (péssima, por sinal).
Macabéa é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar, seu desejo maior era ser igual a Marilyn Monroe, símbolo sexual da época). Nossa personagem não sabe quem é, o que a torna incapaz de impor-se frente a qualquer um.
Começa a namorar Olímpico de Jesus, nordestino ambicioso, que não vê nela chances de ascensão social de qualquer tipo. Assim sendo, abandona-a para ficar com Glória, colega de trabalho de Macabéa; afinal, o pai dela era açougueiro, o que lhe sugeria a possibilidade de melhora financeira.
Triste, nossa personagem busca consolo na cartomante, que prevê que ela seria, finalmente, feliz... a felicidade viria do "estrangeiro".
De certa forma, é o que acontece: ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por Hans, que dirigia um luxuoso Mercedes-Benz. Esta é a sua "hora da estrela", momento de libertação para alguém que, afinal, "vivia numa cidade toda feita contra ela".
"Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever. (...) Pensar é um ato. Sentir é um fato."
Existe a necessidade constante de descobrir-se o princípio, mas o homem, limitado que é, não conhece a resposta a todas as perguntas. A personagem narradora não é diferente dos outros homens, porém, mesmo sem saber tais respostas, de uma coisa ela tem certeza e, por isso, ela afirma: "Tudo no mundo começou com um sim." É preciso dizer sim para que algo comece, por isso, ela diz "sim" a Macabéa. Alguém que forçou seu nascimento, sua saída de dentro do narrador, tornando-se a nordestina, personagem protagonista de seu romance.
É o grito do narrador que aparece no corpo de Macabéa: "Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás - descubro eu agora - também não faço a menor falta, e até o que eu escrevo um outro escreveria. Um outro escritor sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas."
Assim, ela é uma entre tantas, pois quem olharia para alguém com "corpo cariado", franzino, trajes sujos, ovários incapazes de reproduzir? Com ela o narrador identifica-se, pois ele também nada fez de especial (qualquer um escreveria o que ele escreve); teria de ser escritor, mas nunca escritora; por outro lado, não se pode esquecer de que quem escreve é Clarice Lispector, conforme se afirma na dedicatória.
Dessa forma, desencadeia-se, na primeira parte do livro, todo um processo de metalinguagem, que entrecortará a narrativa até o seu desfecho. O narrador homem - Rodrigo S. M. - tecerá reflexões sobre a posição que o escritor ocupa na sociedade, seu papel diante dela e, principalmente, sobre o processo de elaboração da escritura de sua obra:
"Escrevo neste instante com prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela - e é claro que a história é verdadeira embora inventada - que cada um reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que ouro - existe a quem falte o delicado essencial.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora seja obrigado a usar as palavras que vos sustentam. A história - determino com falso livre arbítrio - vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e chuva caindo."
Ironizando, repetidas vezes, o desejo que os leitores têm da narrativa tradicional, Clarice Lispector (aqui transfigurada no narrador Rodrigo S. M.), em contrapartida, não abre mão de suas características mais marcantes, ou seja, a reflexão, o elemento acima do enredo, o "silêncio e a chuva caindo", que marcarão a personagem protagonista.
Como contar a vida sem menti-la? Para isso, pondera o narrador, a narrativa há de ser simples, sem arte. O narrador está enjoado de literatura. Não usará "termos suculentos", "adjetivos esplendorosos", "carnudos substantivos", verbos "esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação". A linguagem deve ser despojada para ser precisa e para poder alcançar o corpo inteiro e vivo da realidade.
Como escreve o narrador? "Verifico que escrevo de ouvido assim como aprendi inglês e francês de ouvido. Antecedentes meus do escrever? Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. (...) Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim."
Chegamos, aqui, ao ponto mais importante desse trabalho de metalinguagem: a consciência do escritor como um marginalizado. É aqui que o narrador se funde com sua personagem: ambos são marginalizados, num espaço que não os aceita. Tal fusão se dá em todos os níveis - não apenas no desejo de simplicidade da linguagem despojada; para poder falar de Macabéa, o escritor torna-se um trabalhador braçal, faz-se pobre, dorme pouco, adquire olheiras fundas e escuras, deixa a barba por fazer, lidando com uma personagem que insiste, com seus dezenove anos, mesmo tendo "corpo cariado", comparada a uma "cadela vadia", "numa cidade toda feita contra ela", em viver. Assim, personagem e narrador dão seu grito de resistência em busca da vida.
A resistência de Macabéa pode ser representada, por exemplo, nos momentos em que sorri na rua para pessoas que sequer a veem; a resistência do narrador, na busca da palavra, cheia de sentidos secretos... a "coisa", que, quando não existe, deve ser inventada (o narrador escritor como senhor da criação).
Tanto Macabéa como a palavra são pedras brutas a serem trabalhadas. A palavra será a mediadora entre o narrador e o leitor, e entre o leitor e Macabéa, pois é por meio dela que conheceremos a história da personagem, os fatos e, principalmente, o nascimento deles. O narrador, ao contar Macabéa, conta a si mesmo, não só pelas sucessivas identificações com a personagem, mas porque ela sai de dentro de si, imanente que é a ele ("pois a datilógrafa não quer sair de meus ombros.") .
Dessa união, nasce uma nordestina vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro. Datilógrafa, "o que lhe dava alguma dignidade", fazendo-a acreditar que tal profissão indicava que "era alguém na vida" (aqui, não lhe passa pela cabeça que é uma péssima profissional, semi-analfabeta... ela não tem consciência de nada disso).
Alguém com aparência bruta, capaz de enojar suas quatro companheiras de quarto (na pensão onde morava), trabalhadoras das Lojas Americanas:
"... dormia de combinação de brim, com manchas bastante suspeitas de sangue pálido (...) Dormia de boca aberta por causa do nariz entupido.
Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. No espelho distraidamente examinou as manchas do rosto. Em Alagoas chamavam-se ‘panos’, diziam que vinham do fígado. Disfarçava os panos com grossa camada de pó branco e se ficava meio caiada era melhor que o pardacento. Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era murrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la. Nada nela era iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho de opala. Mas não importava. Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio.
Assoava o nariz na barra da combinação. Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela."
Sua falta de percepção física acompanha a psicológica. Começa com o fato de ela ser alvo fácil da sociedade consumista e da indústria cultural: gosta de colecionar anúncios; seus parcos conhecimentos são extraídos da Rádio Relógio (informações ouvidas, mas nunca entendidas); gosta de cachorro-quente e Coca-Cola. Aceita tudo isso sem questionar, pois teme as conclusões a que pode chegar (arrepende-se em Cristo por tudo, mesmo não entendendo o que isso significa; não se vingava porque lhe disseram que isso é "coisa infernal"; apaixona-se pelo desconhecido, como no caso da palavra "efemérides", mas nunca procurava, efetivamente, conhecer o incognoscível, pois era mais fácil aceitar-lhe a existência e admirá-lo a distância).
Consequentemente, torna-se personagem "torta", de tanto encaixar-se num meio que tanto a repele. O próprio emprego de datilógrafa é revelador: ela o era por acreditar que este lhe dava alguma dignidade. Buscava a dignidade, como se não tivesse direito a ela. Outro dado revelador é seu relacionamento com Olímpico, desculpando-se com ele todo o tempo, chegando a dizer-lhe que não é muito gente, que só sabe ser impossível. Ela não se defende por seus próprios valores, mas tenta adaptar-se aos valores do namorado, nunca discutindo a validade deles.
Olímpico representa o contraponto em relação a Macabéa. Seus valores em nada se relacionam aos dela: metalúrgico, quer ser deputado, afastar-se de Macabéa e ficar com Glória, a loira oxigenada, colega de trabalho de Macabéa; afinal, o pai dela era açougueiro, o que lhe dava maiores perspectivas de vida.
E tudo isso é, literalmente, engolido, tão deglutido, que ela não admite a ideia de vomitar; afinal, isso seria um desperdício.
Ao mesmo tempo, é sensual em seus pensamentos, ou nos momentos de solidão, como quando viu o homem bonito no botequim, ou ainda quando ficou em casa - ao invés de ir trabalhar - vivendo a sensação de liberdade. O prazer em Macabéa é algo que sempre se alia à dor. Ao ver o homem, por exemplo, apesar do prazer que tal visão lhe dá, há o sofrimento por não o possuir e por ter a certeza de que alguém assim é mesmo só para ser visto. Macabéa já havia experimentado essas sensações contraditórias com outra pessoa, a tia, que, ao bater na menina, sentia prazer ao vê-la sofrer: "... e ela era só ela", imune à vida, vida que era morte, por tanta aceitação.
O instinto de vida, que está ligado ao prazer, vem sustentá-la. Diz o narrador: "Penso no sexo de Macabéa (...) seu sexo era a única marca veemente de sua existência."
E ainda, mais adiante, ligando o prazer à morte: "Ela nada podia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo."
De que "relação sexual" se pode falar no caso de Macabéa? Da relação com a própria vida, que ela insiste em manter, no seu conceito tão particular de beleza: usava batom vermelho, queria ser atriz de cinema com Marylin Monroe, apreciava os ruídos, pois eram vida.
Essas sensações se intensificam quando vai à cartomante Carlota (por recomendação de Glória), no momento em que esta lhe revela: a felicidade viria de fora, do estrangeiro. A cartomante mostra-lhe a tragédia que é sua vida (coisa de que, até o momento, não havia tomado consciência), mas, ao mesmo tempo, dá-lhe a esperança de acreditar que as coisas poderiam ser diferentes... a possível felicidade.
Quando sai da casa da cartomante, é atropelada por Hans, que dirigia um automóvel Mercedes-Benz, momento em que a vida se torna "um soco no estômago":
"Por enquanto Macabéa não passava de um vago sentimento nos paralelepípedos sujos. (...)
Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não sabia. (...)"
A morte dela é o momento em que Eros (Amor) se une a Tanatos (Morte), vida e morte, num momento doce, e sensual:
"Então - ali deitada - teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. (...) E havia certa sensualidade no modo como se encolhera. Ou é como a pré-morte se parece com a intensa ânsia sensual? É que o rosto dela lembrava um esgar de desejo. (...)
Se iria morrer, na morte passava de virgem a mulher. Não, não era morte pois não a quero para a moça: só um atropelamento que não significava sequer um desastre. Seu esforço de viver parecia uma coisa que se nunca experimentara, virgem que era , ao menos intuíra, pois só agora entendia que mulher nasce mulher desde o primeiro vagido. O destino de uma mulher é ser mulher. Intuíra o instante quase dolorido e esfuziante do desmaio do amor. Sim, doloroso reflorescimento tão difícil que ela empregava nele o corpo e a outra coisa que vós chamais de alma. (...)
Nesta hora exata, Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.
O que é que eu estou vendo agora é e que me assusta? Vejo que ela vomitou um pouco de sangue, vasto espasmo, enfim o âmago tocando no âmago: vitória!"
Sua boca, agora, vermelha como a de Marylin Monroe, no apogeu orgásmico da morte, grita, pela primeira vez, depois de vomitar, à vida:
"E então - então o súbito grito estertorado de uma gaivota, de repente a águia voraz erguendo para os altos ares a ovelha tenra, o macio gato estraçalhando um rato sujo e qualquer, a vida come a vida."
Chegamos, afinal, ao momento da epifania do narrador fundido à Macabéa: é a vida que grita por si mesma, independente da opressão e da marginalização social. O momento, entremeado com silêncio, da consciência a que se chega pelo ato de escrever:
"(...) O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Etc. , etc., etc. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada.
Eu vos pergunto:
- Qual é o peso da luz?
E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim."
Enfim, descobrimos, agora, que tudo começa e acaba com um sim. Também é preciso coragem para morrer, silêncio para ouvir o grito da vida.

Comentários sobre "A Divina Comédia"

A Divina Comédia
Dante Alighieri

Ao fazer com que cada terceto antecipe o som que irá ecoar duas vezes no terceto seguinte, a terza rima dá uma impressão de movimento ao poema. É como se ele iniciasse um processo que não poderia mais parar. Através das descrições e comentários abaixo pode-se ter uma visão mais clara do efeito dinâmico da poesia: Os três livros que formam a Divina Comédia são divididos em 33 cantos cada, com aproximadamente 40 a 50 tercetos, que terminam com um verso isolado no final. O Inferno possui um canto a mais que serve de introdução a todo o poema. No total são 100 cantos. Os lugares descritos por cada livro (o inferno, o purgatório e o paraíso) são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 (3 vezes 3 vezes 3) níveis. Os três livros rimam no último verso, pois terminam com a mesma palavra: stelle, que significa 'estrelas'.
Dante chamou a sua obra de Comédia. O adjetivo "Divina" foi acrescido pela primeira vez em uma edição de 1555. A Divina Comédia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustave Doré, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e William Blake estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Comédia como tema de um de seus poemas sinfônicos.

Inferno: Quando Dante se encontra no meio da vida, ele se vê perdido em uma floresta escura, e sua vida havia deixado de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio - poeta da antiguidade que ele admira - disposto a guiá-lo por um caminho alternativo. Virgílio foi chamado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que o viu em apuros e decidiu ajudá-lo. Ela desceu do céu e foi buscar Virgílio no Limbo. O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio guiaria Dante até as portas do céu. Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas.

Purgatório: Saindo do inferno, Dante e Virgílio se veem diante de uma altíssima montanha: o Purgatório. A montanha é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo chegando a alcançar o céu. Na base da montanha encontram o ante-purgatório, onde aqueles que se arrependeram tardiamente dos seus pecados aguardam a oportunidade para entrar no purgatório propriamente dito. Depois de passar pelos dois níveis do ante-purgatório, os poetas atravessam um portal e iniciam sua nova odisseia, desta vez subindo cada vez mais. Passam por sete terraços, cada um mais alto que o outro, onde são expurgados cada um dos sete pecados capitais. No último círculo do purgatório, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre. Finalmente, às margens do rio Letes, Dante encontra Beatriz e se purifica, banhando-se nas águas do rio para que possa prosseguir viagem e subir às estrelas.


Paraíso: O Paraíso de Dante é dividido em duas partes: uma material e uma espiritual (onde não há matéria). A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), o céu das estrelas fixas e o Primum Mobile - o céu cristalino e último círculo da matéria. Ainda no paraíso terrestre, Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se, "transumanando". Guiado por Beatriz, Dante passa pelos vários céus do paraíso e encontra personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. Chegando ao céu de estrelas fixas, ele é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No céu cristalino Dante adquire uma nova capacidade visual, e passa a ter visão para compreender o mundo espiritual, onde ele encontra nove círculos angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística, se separa de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, "o amor que move o Sol e as outras estrelas".

quarta-feira, 1 de julho de 2015

AMOR DE PERDIÇÃO

Marco do Ultra-Romantismo português,
Amor de Perdição, publicado em 1862, foi muito bem-recebido pelo público em seu lançamento.
A obra é considerada uma espécie de Romeu e Julieta lusitano.

Camilo Castelo Branco pertence à Segunda fase do Romantismo português, chamada Ultra-Romantismo – corrente literária da segunda metade do século XIX que leva ao exagero os ideais românticos. Escreveu vários gêneros de novelas: satíricas, históricas e de suspense. Mas foram suas novelas passionais – como Amor de Perdição – que lhe deram maior projeção dentro da literatura portuguesa.
Nesta novela passional, de temática romântica exemplar, o escritor levou às últimas consequências a ideias de que o sentimento deve sobrepor-se à vida e à razão.

O livro trata do amor impossível e discute a oposição entre a emoção e os limites impostos pela sociedade à realização da paixão. Sem conseguir o objeto da paixão, o herói romântico confirma seu destino trágico. Nele, o mesmo amor que redime resulta em morte, conforme antecipa o narrador-autor na introdução do livro, ao comentar o destino do seu herói: “Amou, perdeu-se e morreu amando”.

1. UMA NOVELA ULTRA-ROMÂNTICA. Amor de Perdição é uma obra-prima do Ultra-Romantismo português. Tem um narrador em primeira pessoa, que não participa dos acontecimentos, mas conhece os fatos passados por “ouvir falar” e “por pesquisar em documentos”. Conta a história do amor impossível dos jovens Simão e Teresa, separados por rivalidades entre suas famílias – os Albuquerques e os Botelhos, moradores da cidade de Viseu, em Portugal, e inimigos por questões financeiras.

1a. A APOTEOSE DO SENTIMENTO. O corregedor Domingos Botelho e sua mulher Rita Preciosa têm cinco filhos, entre eles Simão, que desde pequeno demonstra um temperamento explosivo e indolente, e Manuel, calmo e ponderado. O primeiro vai estudar em Coimbra depois de uma confusão doméstica, em que toma a defesa de um criado da família. Lá, adota os ideais igualitários da Revolução Francesa e acaba preso durante seis meses por badernas e arruaças. Quando sai da cadeia, volta a Viseu, onde conhece e se apaixona por Teresa, sua vizinha que tem 15 anos e é filha de uma família inimiga da sua. Com o objetivo de separar Simão e Teresa, o pai da moça ameaça mandá-la para o convento, enquanto Domingos Botelho envia Simão de volta a Coimbra. Uma velha mendiga faz o papel de pombo-correio do casal, levando as cartas trocadas entre os dois jovens apaixonados.

1b. A MUDANÇA DE SIMÃO. Movido pelo amor a Teresa, Simão decide se regenerar e estudar muito. Nesse meio tempo, o irmão Manuel, que chegara a Coimbra, foge para a Espanha com uma açoriana casada. A irmã caçula de Simão – Ritinha – faz amizade com Teresa. O pai da heroína quer casá-la com o primo Baltasar Coutinho – ordem que a moça se nega a cumprir. As intenções do pai de sua amada fazem Simão retornar clandestinamente para Viseu, hospedando-se na casa do ferreiro João da Cruz, antigo conhecido da família Botelho. Simão combina encontrar-se às escondidas com Teresa no dia do aniversário da moça, mas o encontro é transferido porque Teresa é seguida.

1c. AMOR E MORTE. Na data combinada, Simão vai ao encontro marcado levando consigo o ferreiro João da Cruz e outros amigos. Depara-se com Baltasar que, na companhia de alguns criados, fora até o local para matar Simão. Na briga, dois dos criados de Baltasar são mortos. Ferido, Simão convalesce na casa de João da Cruz. Teresa vai para um convento. Mariana, filha do ferreiro apaixonada por Simão, empresta a ele suas economias para que vá atrás de Teresa, dizendo que o dinheiro pertence à mãe do próprio Simão.
No dia previsto para que Teresa mude de convento, Simão decide raptá-la. Dá-se um novo confronto com Baltasar Coutinho, que leva um tiro na testa e morre.
Simão entrega-se à polícia e dispensa a ajuda da família para sair da cadeia.
Levado a julgamento, é condenado à forca. Enquanto isso, Mariana enlouquece de amor e a saúde de Teresa definha no convento. Na cadeia, Simão passa os dias lendo e escrevendo cartas. João da Cruz é assassinado pelo filho do criado de Baltasar Coutinho. Mariana, que estava na cidade do Porto, volta a Viseu para tomar posse da herança, confiada a Simão. Tardiamente, o pai de Simão pede que sua pena seja comutada em dez anos de prisão, mas o filho rejeita a ajuda paterna.
Prefere o desterro para as Índias. Na data em que a nau dos condenados parte, Teresa morre no convento. Ao saber da morte de sua amada, Simão adoece, vindo a falecer no décimo dia de viagem. Quando seu corpo é jogado ao mar, Mariana que o havia acompanhado, lança-se da proa, suicidando-se abraçada à mortalha do amado.


PARA LEMBRAR:
O narrador-autor de Amor de Perdição conta fatos reais, romanceados a partir dos relatos de uma tia que o criou. Preocupa-se em transcrever documentos para dar autenticidade às aventuras que vai narrar. Essa preocupação do autor é um recurso romântico para mobilizar e envolver o leitor com a intenção de comovê-lo.

1d. CENÁRIO EM MOVIMENTO. A novela passa em Portugal, no século XIX, fase final do absolutismo, quando a Corte portuguesa experimentava as consequências das invasões francesas determinadas por Napoleão. Em Amor de Perdição, o deslocamento das personagens para as cidades de Viseu, Coimbra e do Porto apenas reflete a complexidade das situações que as envolvem, não determinando os acontecimentos. Ainda assim, as referências às cidades permitem uma visão mais ampla da moral vigente e do provincianismo da sociedade portuguesa da época, na qual a tradição de familiar e a preocupação com a reputação prevalecem sobre o individualismo.

2. UM NARRADOR E VÁRIAS VOZES. Camilo Castelo Branco narra sua história de maneira densa e ágil, intercalando, com maestria, a narração e os diálogos.
Sem deixar de afirmar o caráter verídico dos fatos que descreve, o narrador-autor assume que se vale mais da memória do que da realidade dos fatos. Utiliza-se também, ao mesmo tempo, de inúmeros documentos para afastar dúvidas quanto à credibilidade do que descreve, posicionando-se como contador de fatos já ocorridos. “Já lá se vão cinquenta e sete anos (...)”, diz a carta de tia Rita.
Ao relatar a forma como conseguiu os documentos para reconstituir “a triste história de meu tio paterno Simão Botelho”, o narrador está com o foco centrado na primeira pessoa. Assim que começa a descrever os fatos ocorridos a cada um dos personagens, torna-se um narrador em terceira pessoa.

2a. AMOR POR CORRESPONDÊNCIA. As cartas trocadas entre os dois jovens protagonistas apaixonados, incluídas no livro, são um importante recurso retórico usado pelo escritor e que intensifica o teor passional e dramático da história.
Trazendo emoções e confissões de Simão e Teresa, os textos das cartas os transformam também em narradores. Amor de Perdição é, portanto, uma obra que possui múltiplas vozes narrativas.
Também se destaca na obra o personalismo do narrador-autor, que volta e meia interfere para julgar ou ponderar – mostrando comoção ou indignação, porém sem se alongar demais nas suas digressões a ponto de prejudicar a ação.

3. AÇÃO EM ORDEM CRONOLÓGICA. Em Amor de Perdição, os acontecimentos se desenrolam de uma maneira bastante linear e em ordem cronológica, privilegiando a ação em vez da descrição.
Exemplar no gênero novela passional, a obra tem uma única trama central – a infeliz história de amor entre Teresa e Simão, repleta de desavenças, infortúnios, crimes, mortes, fugas e tentativas de rapto -, em torno da qual se movimentam as demais personagens.

3a. UMA LINGUAGEM POPULAR. O próprio Castelo Branco justifica o sucesso de seu romance: “Rapidez das peripécias, a derivação concisa do diálogo para pontos essenciais do enredo, a ausência de divagações filosóficas, a lhaneza de linguagem e o desartifício das locuções”. Essa explicação está incluída no prefácio da segunda edição da novela, desdenhada pelo autor, no início, por tê-la produzido em apenas 15 dias, no período em que ficou preso.
Embora tenha escrito febrilmente para sustentar a família e produzido, certa vez, quatro livros ao mesmo tempo, Camilo Castelo Branco manteve sempre o cuidado estilístico e a preocupação com a pureza da linguagem. Se, às personagens mais populares, emprestava uma fala viva e espontânea, aos protagonistas burgueses reservava uma retórica mais sentimental e trágica.

4. PERSONAGENS SEM CONTRADIÇÕES. O mundo romântico é idealizado, povoado de personagens virtuosas e sem contradições. Nesse contexto, podem-se contrapor às regras sociais, mas são sempre guiadas por seus sentimentos. Amor de Perdição tem três personagens principais: Simão, Teresa e Mariana. Embora pertençam a classes sociais diferentes – Simão e Teresa são burgueses, enquanto Mariana é filha do camponês João da Cruz -, a distinção se perde porque o que vale, na novela e no romance romântico, é a nobreza das emoções, permitindo que sua firmeza de caráter sobressaia.

4a. SIMÃO ANTÔNIO BOTELHO: O HERÓI ROMÂNTICO. Se muito do que é relatado em Amor de Perdição tem seu fundo de verdade – todos os Botelhos citados na narrativa são realmente parentes do autor por parte de pai -, o herói romântico é, confessadamente, enriquecido pela imaginação do autor. O Simão real, segundo um biógrafo, era pouco e um bagunceiro em Coimbra, até ser degredado para a Índia em 1807, sem que se tivessem mais notícias dele depois. Já o Simão de Camilo Castelo Branco ainda jovem tem ideais revolucionários, mostrados claramente quando ele se rebela contra a mentalidade escravocrata de sua família, cena descrita no primeiro capítulo.
Essencialmente romântico, e muito inspirado na vida do próprio autor, o herói tenta seguir a ordem estabelecida para ter o amor de Teresa, desejo que se mostra impossível. Sem obter resultado, Simão parte para uma espécie de extremismos emocionais, como a tentativa de rapto que culmina em mortes. Defensor das ideias liberais, tem nobreza de caráter. Tanto que se entrega à polícia depois de dar vazão ao seu lado colérico, quando mata Baltasar Coutinho.

4b. TERESA DE ALBUQUERQUE: A HEROÍNA ROMÂNTICA. A frágil Teresa opõe-se firmemente ao destino que a família quer lhe impor Mas se vê obrigada a cumprir as ordens do pai, o dominador Tadeu de Albuquerque. Obstinada e apaixonada, luta para não se casar com o primo Baltasar Coutinho e troca cartas com Simão, na tentativa de acalmar a chama da paixão.
Marginalizada e enclausurada num convento, reflete a fé na justiça divina e as injustiças cometidas em função dos preconceitos da época, que se interpunham entre ela e a felicidade não realizada.

4c. MARIANA: A AMANTE SILENCIOSA. Mulher mais velha, de 24 anos, criada no campo, Mariana pertence a uma classe social mais popular. Dela o narrador diz ter “formas bonitas” e um rosto “belo e triste”, para realçar a grandeza de seu amor-renúncia. O desprendimento que mostra - mando Simão em silêncio e, por isso, ajudando-o a se aproximar da felicidade pela figura representada pela figura de Teresa – faz parte do ideário romântico. Abnegada e fiel, Mariana jamais diz uma palavra e controla obstinadamente seu ciúme. Na história de Camilo Castelo Branco, é a personagem que mais sofre no romance. Pode-se dizer que a obra existe uma tríade romântica – Simão, Mariana e Teresa. Os três nunca se realizam sentimentalmente e têm um final trágico.

4d. JOÃO DA CRUZ: O CAMPONÊS RÚSTICO. Personagem popular, é um camponês que se transforma no protetor do jovem Simão quando este volta à cidade de Viseu, atrás de Teresa. A princípio, cuida do jovem em retribuição ao pai de Simão, que outrora o livrara de uma complicação judicial. Mas depois acaba gostando tanto de Simão a ponto de matar para defender o rapaz.

4e. BALTASAR COUTINHO: O BURGUÊS INTERESSEIRO. É o primo de Teresa, rapaz sem moral e sem brios, que não ama a moça, mas está disposto a recorrer a quaisquer expedientes para vencer a disputa com Simão. Faz o contraponto com o herói, na medida em que ambos vêm de famílias abastadas. Mas enquanto Simão se move pelos mais nobres sentimentos, Baltasar é norteado por intenções medíocres.

4f. TADEU DE ALBUQUERQUE: O AUTORITÁRIO. É o pai de Teresa, que a todo momento toma o destino da moça nas mãos, sem respeitar seus sentimentos. Por uma rivalidade particular com a família de Simão, decide impedir a felicidade da filha, criando vários empecilhos para afastá-la de seu amor.

4g. MANUEL BOTELHO, O IRMÃO DESMIOLADO. O jovem irmão de Simão – que inicialmente critica o protagonista por sua vida desordenada – envolve-se com uma mulher casada na época em que vai morar com Simão na cidade de Coimbra. Arrependido, confirma sua dependência familiar quando pede ajuda aos pais para devolver aos Açores a mulher casada com quem havia fugido.

ANOTE!
As personagens do Romantismo vivem em conflito com a sociedade, que impõe limites à realização de seus desejos. No caso de Amor de Perdição, o obstáculo a ser superado é a família, tanto da de Teresa quanto a de Simão.
As personagens do Realismo vivem em contradição consigo mesmas e coma sua visão do mundo.

5. AS NOVELAS CAMILIANAS. Embora Camilo Castelo Branco classificasse suas obras como romances, os críticos literários referem-se a elas como novelas. A diferença essencial está no tratamento linear da narrativa, nas cenas sucessivas e na conclusão fechada. Os romances abordam um mundo multifacetado, com personagens mais complexas e contraditórias.
Nas novelas passionais do autor, o tema central é amor, exacerbação do sentimento que leva à ruptura com os padrões de comportamento e as regras sociais: a transgressão norteada pelos mais nobre dos sentimentos: a paixão que justifica toda a sorte de condutas, como o enlouquecimento – no caso de Mariana, a apaixonada que ama Simão em silêncio; a clausura – de Teresa, enviada para um convento pelo pai para afastá-la de seu amor; e a transformação de um homem de bem em criminoso – como o assassinato cometido por Simão. São histórias curtas que relatam, quase sempre, a luta entre o bem e o mal.

ANOTE!
Em suas novelas passionais, Camilo Castelo Branco explora a contradição entre o eu – que quer guiar-se pelos sentimentos – e os limites sociais que tentam impedir a concretização desses sentimentos. Tudo isso passa num mundo cheio de personagens que são moldadas de forma maniqueísta, voltadas para o bem ou para o mal, sem se desviar de seus propósitos.

6. UM APAIXONADO DO CETICISMO. Inscrito na segunda fase do Romantismo português – a corrente literária classificada de Ultra-Romantismo -, Camilo Castelo Branco opta pela abordagem dos sentimentos em vez de voltar-se para a questão do nacionalismo, uma característica que marcou vários autores na primeira fase do Romantismo em vários países europeus, inclusive Portugal. A grande interrogação de Camilo Castelo Branco é; até que ponto o homem pode se valer dos sentimentos para guiar sua existência?
                                                              
PARA LEMBRAR
O Romantismo surgiu na primeira metade do século XIX, condicionado pelo fenômeno de ascensão da burguesia, provocado pela Revolução Francesa e consolidado com as Revoluções Liberais de 1830 e 1848. É uma reação ao universalismo neoclássico, propondo uma literatura subjetiva e individualista.
O exagero desse individualismo, o tédio e o ceticismo diante da existência criam a sensação indefinida de insatisfação, a que os românticos davam o nome de “Mal do Século”. A dificuldade em distinguir o sonho da realidade; o nacionalismo e a valorização do passado; o desejo de reforma e o engajamento político caracterizam a literatura romântica. O romance romântico aborda a temática do amor nas suas formas mais exaltadas, acima do controle da razão e inevitavelmente ligada à morte, como se vê nesta obra de Camilo Castelo Branco.

7. OPOSIÇÃO AO REALISMO. Amor de Perdição, publicado em 1862, é anterior ao início do Realismo em Portugal, que só começa em 1865, com as polêmicas Conferências do Cassino Lisbonense e as discussões que redundaram na chamada Questão Coimbrã. Camilo opunha-se ao romance realista, julgando-o imoral. Criticava-o por retratar pessoas fúteis ou que premeditam crimes, que desorganizam famílias: padres que rompem o celibato e alterações sexuais. O escritor rejeitava esses temas em favor da apologia do sentimento. Sobre o Realismo, afirmou: “(...) Quero escrever romances para as pessoas lerem na sala, não nos quartos de banho. Quero escrever romances para que todas as pessoas da família possam ler: as moças mais jovens, as senhoras
(...)”.

8. O ROMANTISMO EM PORTUGAL. O Romantismo chega a Portugal no momento em que o país vivia uma das suas mais graves crises sociais e políticas. Dividido entre o absolutismo de Dom Miguel e o liberalismo de Dom Pedro IV – Dom Pedro I no Brasil -, a nação portuguesa se viu envolvida numa violenta guerra civil entre os anos de 1832 e 1834. Os liberais – defensores de uma monarquia constitucional – representavam os interesses da burguesa capitalista emergente contra as detentoras dos bens feudais, representado por Dom Miguel. A revolução romântica alimenta-se, em Portugal, dessa revolução social e política. Os primeiros escritores românticos portugueses – Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1877) – participam ativamente da revolução liberal e, após sua vitória, em 1834, retornam do exílio para implantar em Portugal a nova literatura romântica.
8a. AS GERAÇÕES ROMÂNTICAS. Costuma-se dividir o Romantismo português em três gerações. A primeira – entre 1825 e 1840 – caracteriza-se pela luta pelo liberalismo e pela libertação das amarras neoclássicas. Tem em Almeida Garrett e Alexandre Herculano seus principais representantes. Na Segunda geração – entre 1840 e 1860 -, prevalece o passionalismo e sobressai a figura ultra-romântica de Camilo Castelo Branco. Na terceira – de 1860 -, representada por Júlio Dinis (1869-1871), é marcada a fase de transição para o Realismo da década de 70.

VIDA E OBRA:
O MAIS ROMÂNTICO DOS ROMÂNTICOS
A vida de Camilo Castelo Branco (1825-1890) parece Ter sido copiada de uma de suas novelas passionais. Aos dois anos fica órfão de mãe. Aos dez perde o pai. Criado por uma tia e pela irmã, recebe educação religiosa. Aos 16 anos, casa-se com Joaquina Pereira, de apenas 15. Desse primeiro casamento – logo esquecido – tem uma filha, que morre aos cinco anos. Entre os anos de 1843 e 1846, tenta, sem sucesso, formar-se em Medicina na cidade do Porto e de Coimbra.
Entretanto, parece mais inclinado à boêmia e ao escândalo. Em 1846, é preso por raptar a jovem Patrícia Emília, com quem tem outra filha. Em 1847, fica viúvo de Joaquina Pereira. Trava um duelo com um dos filhos de Maria Felicidade Brown, e passa a ter um caso com ela.

1. UMA SUCESSÃO DE TRAGÉDIAS. Em 1850, conhece Ana Plácido, por quem se apaixona.
Quando ela se casa com o brasileiro Pinheiro Alves, o autor entra para o Seminário do Porto, buscando refúgio na religião. Mantém, então, um escandaloso caso amoroso com a freira Isabel Cândida. Em 1859, Ana Plácido abandona o marido e vai viver com o escritor. Perseguidos pela justiça, os dois passam um ano da Cadeia da Relação, na cidade do Porto. Data desse período de encarceramento a redação de sua maior novela passional – Amor de Perdição -, inspirada nas suas próprias desventuras e na peça Romeu e Julieta, do escritor inglês William Shakespeare. Com a publicação da novela, em 1862, o escritor alcança grande popularidade.
O casal muda-se para São Miguel de Seide. Camilo Castelo Branco, então, passa a escrever para sobreviver. O irônico Coração, Cabeça e Estômago (1862) e Amor de Salvação (1864) estão entre as melhores obras escritas nesse período. Vários episódios trágicos continuam a perseguir o escritor. Um deles é a loucura de seu filho Jorge. O outro, a cegueira que começa a se manifestar no autor em 1867, consequência de uma sífilis contraída na juventude e mal curada. Em 1890, Camilo Castelo Branco coloca um ponto-final em sua maior novela passional. Mata-se com um tiro de pistola.

Principais obras: Carlota Ângela (1858), Amor de Perdição (1862), Coração, Cabeça e Estômago (1862), Amor de Salvação (1864), A Queda dum Anjo (1866), A Doida do Candal (1867), Novelas do Minho (1875-
77), Eusébio Macário (1879), A Corja (1880), A Brasileira de Prazins (1882)

GLOSSÁRIO
Açoriana: natural ou habitante dos Açores.
Desterro: ato ou efeito de desterrar; banimento.
Ideário: conjunto ou sistema de ideias políticas, sociais e econômicas.
Lhaneza: franqueza, sinceridade, lisura.
Tríade: conjunto de três pessoas ou três coisas; trindade, trilogia.

Esse estudo foi apresentado na edição do livro vendida pelo jornal O Estado de São Paulo a seus assinantes.
Amor de Perdição é novela passional.
Luiz Antônio da Silva*
Especial para o Fuvest

Camilo Castelo Branco conquistou fama com a novela passional Amor de Perdição. Bem ao gosto romântico, a característica principal da novela passional é o seu tom trágico. As personagens estão sempre em luta contra terríveis obstáculos para alcançar a felicidade no amor.
Normalmente, essa busca é frustrante. Mesmo quando os amantes ficam juntos, isso é conseguido a custa de muito sofrimento. Os direitos do coração, frequentemente, vão de encontro aos valores sociais e morais. Segundo o autor, Amor de Perdição foi escrito em 15 dias em 1861, quando ele estava preso na cadeia da Relação, na cidade do Porto, por ter-se envolvido em questões de adultério.
Como o drama de Romeu e Julieta, a obra focaliza dois apaixonados que têm como obstáculo para a realização amorosa a rivalidade entre as famílias. A ação se passa em Portugal, no século19. O narrador diz contar fatos ocorridos com seu tio Simão. Residentes em Viseu, duas famílias nobres, os Albuquerques e os Botelhos, odeiam-se por causa de um litígio em que o corregedor Domingos Botelho deu ganho de causa contrário aos interesses dos primeiros. Simão é um dos cinco filhos do corregedor.
Devido ao seu temperamento explosivo, Simão envolve-se em confusões. Seu pai o manda estudar em Coimbra, mas ele se envolve em novas confusões e é preso. Liberto, volta para Viseu e se apaixona por Teresa Albuquerque, sua vizinha.
A partir daí, opera-se uma rápida transformação no rapaz. Simão se regenera, torna-se estudioso, passa a ter como valor maior o amor, e todos os seus princípios são dele decorrentes. Os pais descobrem o namoro.
O corregedor manda o filho para Coimbra. Para Teresa restam duas opções: casar-se com o primo Baltasar ou ir para o convento. Proibidos de se encontrar, os jovens trocam correspondência, ajudados por uma mendiga e por Mariana, filha do ferreiro João da Cruz. Mariana encarna o amor romântico abnegado.
Apaixona-se por Simão, embora saiba que esse amor jamais poderá ser correspondido, seja pelo fato de Teresa dominar o coração do rapaz seja pela diferença social: ela era de condição humilde, filha de um ferreiro. Mesmo assim, ama a tal ponto de encontrar felicidade na felicidade do amado.
Depois de ameaças e atentados, Teresa rejeita o casamento. Por isso será enviada para o convento de Mon-chique, no Porto. Simão resolve raptá-la, acaba por matar seu rival e se entrega à polícia. João da Cruz oferece-se para ajudá-lo a fugir, mas ele não aceita, pois é o típico herói romântico.
Matou por amor à Teresa, portanto assume seu ato e faz questão de pagar. Enquanto Simão vai para a cadeia, sua amada vai para o convento. Mariana, por sua vez, procura estar sempre ao lado de Simão, ajudando-o em todas as ocasiões. Condenado à forca, a sentença é comutada e Simão é degredado para a Índia.
Quando ele está partindo, Teresa, moribunda, pede que a coloquem no mirante do convento, para ver o navio que levará seu amado para longe. Após acenar dizendo adeus, morre. Seu amor exagerado a leva à perdição.
Durante a viagem, Mariana, que acompanha Simão, mostra-lhe a última carta de Teresa. Ele fica sabendo da sua morte, tem uma febre inexplicável e morre. Seu amor exagerado o leva à perdição. Na manhã seguinte, seu corpo é lançado ao mar. Mariana não suporta a perda e se joga ao mar, suicidando-se abraçada ao cadáver de Simão. Seu amor exagerado a leva à perdição.

FICHA
Estilo: pertence à época romântica
Gênero: novela passional
Foco Narrativo: Embora na "Introdução" narrador e autor se confundam, os fatos são narrados em 3ª pessoa.
Tempo e Espaço: Portugal (Viseu, Coimbra e Porto), século 19.

Personagens: Simão Botelho, Teresa Albuquerque, Mariana, Baltasar, Domingos Botelho, Tadeu Albuquerque, João da Cruz, D. Rita Castelo Branco