"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 10 de agosto de 2014

O modelo comunicativo de Roman Jakobson



Um dos modelos mais utilizados por professores de português para explicar a comunicação humana nasceu — quem diria? — na matemática. Tudo começou em 1948, quando o matemático e engenheiro elétrico Claude Shannon publicou um artigo chamado “Uma teoria matemática da comunicação”. Shannon era pesquisador dos Laboratórios Bell, ligados à gigante norte-americana das computações AT&T, e buscava maneiras de tornar mais eficientes os telégrafos e aparelhos de telefonia da época. Sua grande preocupação era evitar o ruído, isto é, as interferências que prejudicavam a perfeita transmissão da mensagem entre um aparelho e outro.
No ano seguinte, a teoria de Shannon foi publicada em um livro com prefácio de Warren Weaver, outro matemático e engenheiro. Weaver — que também era um ótimo relações-públicas — enviou um exemplar da obra a Roman Jakobson, renomado linguista de origem russa que lecionava na Universidade de Harvard. O linguista ficou fascinado com a nova teoria e considerou que ela também se aplicava à comunicação humana. Nascia, assim, a versão mais clássica do modelo comunicativo, divulgada por Jakobson nos anos 1960.e comunicação humana estão presentes seis elementos:
De acordo com esse modelo, em qualquer ato de comunicação humana estão presentes seis elementos:
·           a mensagem — o conjunto de informações que se quer transmitir;
·           o emissor ou remetente — aquele de quem parte a mensagem;
·           o receptor ou destinatário —aquele a quem se destina a mensagem;
·           o código — um sistema de signos que emissor e receptor precisam compartilhar, total ou parcialmente, para que haja a comunicação;
·           o canal ou contato — o meio físico pelo qual emissor e receptor se comunicam;
·           o referente ou contexto — o assunto da mensagem, aquilo a que ela se refere.
Assim, por exemplo, se você enviar um torpedo a um amigo convidando-o para uma festa, a mensagem será o conteúdo do torpedo, ou seja, o conjunto de palavras que o compõem. O emissor será você, e o receptor, seu amigo. O código será a língua portuguesa, o canal será o celular e o referente será a festa, pois é a ela que a mensagem se refere.
Se você preferir fazer o convite pessoalmente, quase todos os elementos permanecerão inalterados, quase todos os elementos permanecerão inalterados — exceto o canal, que passará a ser o ar, pelo qual sua voz se propagará. Vale lembrar, ainda, que, em um evento comunicativo dinâmico como a conversa face a face, emissor e receptor trocam o tempo todo de posição, de acordo com aquele que está falando ou ouvindo em cada momento.
Vamos a outro exemplo, imagine que você esteja dirigindo por uma estrada e depare com uma placa [com o desenho de uma ponte em que as metades inclinam liberando o rio para a navegação de embarcações]. Neste caso, o emissor é o órgão responsável pelo controle do trânsito, os receptores são você e os demais motoristas. O canal é a placa em si, o código é o conjunto dos sinais de trânsito do país e a mensagem — expressa segundo os símbolos desse código — é “ponte móvel adiante”. Por fim, o referente é a ponte em questão; não qualquer uma, mas especificamente aquela que se encontra adiante, na estrada. Observe que se o receptor não conhecer o código (as placas de trânsito do país), não saberá interpretar a mensagem. Daí termos afirmado que emissor e receptor precisam compartilhar o código, ainda que parcialmente.

Adaptado:
GUIMARÃES, Thelma de Carvalho. Comunicação e linguagem. São Paulo: Pearson, 2012.


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sábado, 26 de julho de 2014

Como escrever siglas

Leitores escrevem comentando sobre a confuso generalizada quando se trata de escrever siglas, pois alguns autores indicam que com até três letras, as siglas devem ser grafadas em maiúsculas e como mais de três letras, somente a inicial maiúscula. Qual é o correto?
Embora tenhamos de obedecer a normas nacionais no tocante à ortografia do léxico português, as siglas escapam a qualquer camisa de força, pois oficialmente sempre se viu o mínimo de respeito de como escrevê-las. Os manuais de ortografia se limitavam ao uso de maiúsculas e pontos [ex. D.A.S.P.]; estes, porém, estão praticamente fora de uso. Mais recentemente é que se começou a falar em siglemas, ou seja, nomes abreviativos formados não apenas das letras iniciais das palavras que os compõem mas também de silabas, adquirindo assim um caráter de palavra [ex. Celesc, Eletronorte, Sudene].  
Desse modo, ao constituir ou escrever uma sigla, pode-se adotar a seguinte convenção (mais tradicional):
1 – Usar só MAIÚSCULAS se cada letra corresponder a uma palavra, independentemente de ser a sigla pronunciável ou não:
ABI – Associação Brasileira de Imprensa
ABL – Academia Brasileira de Letras
BIRD – Banco internacional de Reconstrução e Desenvolvimento
CBF – Confederação Brasileira de Futebol
EMFA – Estado Maior das Forças Armadas
ICESP – Instituto do Café do Estado de São Paulo
SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
UBES – União Brasileira de Estudantes Secundaristas
UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
2 – Só a 1ª LETRA MAIÚSCULA se cada letra não corresponder necessariamente a uma palavra:
Celesc – Centrais Elétricas de Santa Catarina
Funai – Fundação Nacional do Índio
Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
Usiminas – Usina Siderúrgica de Minas Gerais S/A
Muitos jornais procedem de maneira um pouco diferente, orientando a grafia das siglas pelo seu tamanho e pelo fator pronúncia, ou seja:
I – até três letras, em maiúsculas: BC, PIS, ONU, CPF
II – com quatro letras ou mais:
a)  Se pronunciável, só a inicial maiúscula: Abbesc, Fiesc, Icesp, Masp, Ubes
b)  Com todas as maiúsculas quando se lê letra por letra: SBPC, PSDB
Existe também a sigla mista, como CNPq e UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em que as minúsculas são usadas para diferenciá-la de outra sigla que tenha as mesmas iniciais (no último caso, a UFSC).

Observação:
Quando o nome da instituição aparece em meio de uma frase, a orientação é colocar a sigla depois do nome e entre parênteses ou usar apenas um travessão, isto é, não precisa fechá-lo como se faz com o parêntese. Exemplos:
Especialista do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBI) falará sobre a política de preços do petróleo.
Especialista do Centro Brasileiro de Infraestrutura – CBI falará sobre a política de preços do petróleo.

Observação2:
O plural das siglas é formado com o acréscimo de um s minúsculo (sem apostrofo): os CTGs, as APAEs, as ONGs etc.

Fonte:
PIACENTINI, Maria Tereza de Queiroz. Não tropece na língua: lições e curiosidades do português brasileiro. Curitiba: Bonijuris, 2012.


A história da Língua Portuguesa




O surgimento da Língua Portuguesa está profunda e inseparavelmente ligado ao processo de constituição da Nação Portuguesa.
Na região central da atual Itália, o Lácio, vivia um povo que falava latim. Nessa região, posteriormente foi fundada a cidade de Roma. Esse povo foi crescendo e anexando novas terras a seu domínio. Os romanos chegaram a possuir um grande império, o Império Romano. A cada conquista, impunham aos vencidos seus hábitos, suas instituições, os padrões de vida e a língua.
Existiam duas modalidades do latim: o latim vulgar (sermo vulgaris, rusticus, plebeius) e o latim clássico (sermo litterarius, eruditus, urbanus). O latim vulgar era somente falado. Era a língua do cotidiano usada pelo povo analfabeto da região central da atual Itália e das províncias: soldados, marinheiros, artífices, agricultores, barbeiros, escravos, etc. Era a língua coloquial, viva, sujeita a alterações frequentes. Apresentava diversas variações. O latim clássico era a língua falada e escrita, apurada, artificial, rígida, era o instrumento literário usado pelos grandes poetas, prosadores, filósofos, retóricos... A modalidade do latim imposta aos povos vencidos era a vulgar. Os povos vencidos eram diversos e falavam línguas diferenciadas, por isso em cada região o latim vulgar sofreu alterações distintas o que resultou no surgimento dos diferentes romanços e posteriormente nas diferentes línguas neolatinas.
No século III a.C., os romanos invadiram a região da península ibérica, iniciou-se assim o longo processo de romanização da península. A dominação não era apenas territorial, mas também cultural. No decorrer dos séculos, os romanos abriram estradas ligando a colônia à metrópole, fundaram escolas, organizaram o comércio, levaram o cristianismo aos nativos... A ligação com a metrópole sustentava a unidade da língua evitando a expansão das tendências dialetais. Ao latim foram anexadas palavras e expressões das línguas dos nativos.
No século V da era cristã, a península sofreu invasão de povos bárbaros germânicos (vândalos, suevos e visigodos). Como possuíam cultura pouco desenvolvida, os novos conquistadores aceitaram a cultura e língua peninsular. Influenciaram a língua local acrescentando a ela novos vocábulos e favorecendo sua dialetação já que cada povo bárbaro falava o latim de uma forma diferente.
Com a queda do Império Romano, as escolas foram fechadas e a nobreza desbancada, não havia mais os elementos unificadores da língua. O latim ficou livre para modificar-se.
As invasões não pararam por aí, no século VIII a península foi tomada pelos árabes. O domínio mouro foi mais intenso no sul da península. Formou-se então a cultura moçárabe, que serviu por longo tempo de intermediária entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. Apesar de possuírem uma cultura muito desenvolvida, esta era muito diferente da cultura local o que gerou resistência por parte do povo. Sua religião, língua e hábitos eram completamente diferentes. O árabe foi falado ao mesmo tempo que o latim romanço. As influências linguísticas árabes se limitam ao léxico no qual os empréstimos são geralmente reconhecíveis pela sílaba inicial al- correspondente ao artigo árabe: alface, álcool, Alcorão, álgebra, alfândega... Outros: bairro, berinjela, café, califa, garrafa, quintal, xarope...
Embora bárbaros e árabes tenham permanecido muito tempo na península, a influência que exerceram na língua foi pequena, ficou restrita ao léxico, pois o processo de romanização foi muito intenso.
Os cristãos, principalmente do norte, nunca aceitaram o domínio muçulmano. Organizaram um movimento de expulsão dos árabes (a Reconquista). A guerra travada foi chamada de "santa" ou "cruzada". Isso ocorreu por volta do século XI. No século XV os árabes estavam completamente expulsos da península.
Durante a Guerra Santa, vários nobres lutaram para ajudar D. Afonso VI, rei de Leão e Castela. Um deles, D. Henrique, conde de Borgonha, destacou-se pelos serviços prestados à coroa e por recompensa recebeu a mão de D. Tareja, filha do rei. Como dote recebeu o Condado Portucalense. Continuou lutando contra os árabes e anexando novos territórios ao seu condado que foi tomando o contorno do que hoje é Portugal.
  D. Afonso Henriques, filho do casal, funda a Nação Portuguesa que fica independente em 1143. A língua falada nessa parte ocidental da Península era o galego-português que com o tempo foi diferenciando-se: no sul, português, e no norte, galego, que foi sofrendo mais influência do castelhano pelo qual foi anexado. Em 1290, o rei D. Diniz funda a Escola de Direitos Gerais e obriga em decreto o uso oficial da Língua Portuguesa.

Da história dos EUA – Intolerância religiosa

Em 11 de dezembro de 1620, desembarcou em New Plymouth (depois Massachusetts), os primeiros colonos do Mayfloyer, um velho barco cargueiro alugado por dissidentes calvinistas ingleses – e alguns holandeses. Liderados por William Bradford e William Brewster, eram puritanos não conformistas que criticavam a Igreja Anglicana que, na opinião deles, ainda se mantinha vinculada aos rituais romanos (papado). Foram para a América do Norte em busca da liberdade religiosa e consideravam-se como essencialmente cristãos. Como relata Paul Johnson:
“Os homens e mulheres do Mayfloyer eram muito diferentes [dos colonos que desembarcaram na Virgínia]. Eles não chegaram à América com o propósito primordial de enriquecerem, e nem sequer com a intenção de ganhar a vida, ainda que aceitassem ambas as possibilidades como benções de Deus, mas sim para criar o reino Dele sobre a terra. Eram os zelotes, os idealistas, ou talvez devêssemos afirmar que os mais extremistas entre eles eram fanáticos, intransigentes e excessivos em suas pretensões de superioridade moral. Também eram imensamente enérgicos, tenazes e valentes”. *
O impulso que os moviam era de cunho religioso. Perseguidos, defendiam a liberdade religiosa. Mas, qual liberdade? Eis outro paradoxo da história dos EUA: a defesa desta não é incompatível com a intolerância religiosa e a perseguição aos que, entre eles, não professassem dos mesmos princípios. Intérpretes da palavra divina se consideravam no direito de definir o bom e o justo. Se na metrópole eram os “perseguidos”, não vacilavam em perseguir os considerados hereges e desagregadores em solo norte-americano. Leiamos o relato do historiador:
“Em Massachusetts era costume advertir às pessoas identificadas como agitadoras religiosas que deviam ir embora. Se insistiam em ficar, ou regressavam, eram submetidos a julgamento. Em julho de 1641 por exemplo, o doutor John Clarke e Obediah Holmes, ambos de Rhodes Island, foram presos em Lynn pelo comissário por terem organizado uma reunião religiosa não autorizada em uma casa, na qual condenaram a prática do batismo dos bebês. Clarke foi encarcerado; Holmes foi açoitado publicamente. Em 27 de outubro de 1659, três quakers, William Robinson, Marmaduke Stevenson e Mary Dyer, que haviam sido expulsos várias vezes da colônia – a última vez, com a ameaça de que em caso de reincidir seria aplicado a pena de morte – foram presos sob a acusação de “nocivos e desagregadores” e condenados à forca em Boston. A condenação foi cumprida no caso dos homens. A execução da mulher, que tinha os olhos vendados e a corda em torno do pescoço, foi suspensa devido à intervenção de seu filho, que garantiu que abandonaria a colônia de imediato. O certo é que tempos depois ela voltou e finalmente, em 1 de junho de 1660, foi executada. Outras mulheres foram penduradas por bruxaria; a primeira foi Margaret Jones, condenada em Plymouth em 13 de maio de 1648 por “praticar medicina” com “toque maligno”. Se aplicaram penas severas aos transgressores da moral de todo o tipo. Até 1632, o adultério era penalizado com a morte. Em 1639, outra vez em Plymouth, uma mulher adúltera foi açoitada, depois arrastada pelas ruas com as letras AD costuradas na manga do vestido, e advertida de que se removesse aquele sinal as letras seriam gravadas em seu rosto. Dois anos depois, um homem e uma mulher condenados por adultério foram chicoteados, desta vez “em um poste”, e se ordenou “costurar em lugar bem visível de suas roupas” as letras AD”.**
Assim era a moral entre aqueles que se consideravam guardiões dos bons costumes. Este relato me faz lembrar o filme “O apedrejamento de Soraya M.”.




* JOHNSON, Paul. Estados Unidos. La historia. Buenos Aires: Javier Vergara Editor, 2004, p.51. A tradução das citações é minha.
** Idem, p.69.
Posted in: EUA



Posted on 09/06/2010 by Antonio Ozaí da Silva 

domingo, 20 de julho de 2014

Estrutura do texto dissertativo — A introdução

A introdução na redação dissertativa
A introdução é o início do texto, em que se apresenta o tema e se define a tese. É importante que, desde o começo, se tenha em mente que toda dissertação precisa apresentar uma tese; sua defesa é o motivo pela qual se escreve um texto desse tipo. Em outras palavras, sempre que se escreve um texto dissertativo, tem-se por objetivo defender uma tese.
E o que é defender uma tese? É mostrar para o interlocutor, por meio de dados, argumentos ou provas, qual é a sua posição em relação a determinado assunto e dividir com ele sua opinião, tentando persuadi-lo a pensar como você. Quanto mais objetividade for demonstrada em uma dissertação, mais convincente ela será, pois dessa forma você estará retratando um ponto de vista fundamentado e passível de comprovação, e não apenas a “sua” verdade.
A introdução pode ser iniciada de várias maneiras:

Introdução por afirmação
Veja um exemplo:

Às portas do III Milênio, a máxima filosófica “conhece-te a ti mesmo” nunca esteve tão em voga. De repente, parece que todos se deram conta de que é preciso analisar-se e, especialmente, “autoconhecer-se” para poder progredir, conquistar sonhos, ser feliz, enfim. E na esteira deste tão desejado “autoconhecimento”, como não poderia deixar de ser, cometem-se exageros de toda ordem.
 (Januária Cristina Alves. In revista Classe. 15/3/2000.)


Introdução por citação
Veja um exemplo:

“Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.” Isso é o que reza o artigo VII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas a realidade nos mostra fatos bem diferentes, principalmente se compararmos o tratamento dado ao infrator de colarinho-branco em relação àquele que recebe o cidadão comum que tenha a infelicidade de cair nas “garras” da justiça.


Introdução por pergunta
Veja um exemplo:

Como pode haver paz no mundo se faltam o amor, a tolerância e o respeito pelo outro?


Fonte:

AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.

Estrutura do texto dissertativo — O desenvolvimento

O desenvolvimento na redação dissertativa
Terminada a introdução, é preciso preocupar-se com o desenvolvimento do texto, que deve ser redigido de maneira clara, coerente, concisa e objetiva, mantendo sempre a mesma linha de raciocínio apresentada na introdução.
É importante, neste momento, definir os argumentos a serem usados, fundamentar muito bem as ideias e ter convicção do que se está falando, a fim de receber crédito do leitor e ter seu ponto de vista respeitado.
Ao se justificar esse ponto de vista, convém usar argumentos que tenham valor objetivo, ou seja, que possam ser aceitos por outras pessoas. Por exemplo, ao se afirmar ser necessária uma atitude enérgica e eficaz no combate ao tráfico e uso de drogas, muitos leitores concordarão com essa postura; entretanto, se os argumentos apresentados basearem-se apenas em opiniões pessoais ou mesmo preconceituosas, estar-se-á fazendo um julgamento sobre o assunto e não o analisando objetivamente. Dessa forma, perde-se credibilidade e não se convence o leitor.
No momento de se desenvolver o tema, citações feitas por autoridades, relatos de fatos divulgados pelos meios de comunicação, estatísticas, exemplos e ilustrações poderão ser utilizados para fortalecer a argumentação e dar mais veracidade ao texto. É essa a grande função do desenvolvimento: fundamentar o ponto de vista apresentado na introdução.
O desenvolvimento pode ser elaborado de muitas maneiras diferentes, das quais três serão abordadas aqui:

Desenvolvimento por enumeração
Este tipo de desenvolvimento é muito comum quando se quer expor uma série de características, de funções, de processos, de situações referentes ao tema abordado. Exemplo:

A proximidade das eleições municipais é uma ótima oportunidade para a discussão sobre as condições de vida em nossas cidades. Poluição, congestionamentos de trânsito, lixo, multiplicação de favelas, destruição de rios e lagoas e desmatamento compõem o cotidiano dos grandes centros urbanos. O número de problemas causados pelo desenvolvimento é grande, mas isso não significa que o respeito à ecologia e o progresso não possam andar juntos. O que falta no Brasil é uma vontade política que possibilite ao país rever o seu processo de desenvolvimento, muito destrutivo até agora.
 (Nina de Almeida Braga. Soluções para as cidades. In revista Veja.
 São Paulo, Abril 14/9/1988.)

Desenvolvimento por comparação
Um outro tipo de desenvolvimento possível é o de estabelecer comparações com a intenção de colocar lado a lado ideias, fatos, seres, apontando semelhanças ou contradições entre eles. Exemplo:

[...]Alguns quarteirões adiante posso ver, a distância, um grupo de 15 ou mais jovens, todos parecidos, alguns sentados e outros deitados na grama em uma das saídas do metrô. Esses, claramente, usam drogas. No Brasil seriam chamados de meninos de rua. Aqui recebem o nome de “itinerantes”.
Montreal é a segunda maior cidade do Canadá. Tem mais de 3 milhões de habitantes. Gaba-se de ser multicultural. A imigração daqui é incentivada. Mas não explica a presença desses jovens nas ruas. Os motivos da “itinerância” não são econômicos. São outros. Ao contrário de nossos jovens de rua, os de Montreal não são violentos. A população se sente incomodada mais pelo aspecto e pela presença que por atos infracionais.
(Lígia Costa Leite. In revista Época. São Paulo, Globo, 20/11/2000.)

Desenvolvimento por causa e consequência
Em muitos casos, a introdução do texto dissertativo permite um desenvolvimento que usa uma ou mais relações de causa e consequência. Exemplo:

Todos sabemos que, em nosso país, há muito tempo, observa-se um grande número de grupos migratórios, os quais, provenientes do campo, deslocam-se em direção às cidades, procurando melhores condições de vida.
Ao examinarmos algumas das consequências desse êxodo, verificamos que a zona rural apresenta inúmeros problemas, os quais dificultam a permanência do homem no campo. Podemos mencionar, por exemplo, a seca, a questão da distribuição da terra e a falta de incentivo à atividade agrária por parte do governo.
Em consequência disso, vemos, a todo instante, a chegada desse enorme contingente de trabalhadores rurais ao meio urbano. As cidades encontram-se despreparadas para absorver esses migrantes e oferecer-lhes condições de subsistência e de trabalho. Cresce, portanto, o número de pessoas vivendo à margem dos benefícios oferecidos por uma metrópole; por falta de opção, dirigem-se para as zonas periféricas e ocasionam a proliferação de favelas.
Por tudo isso, só nos resta admitir que a existência do êxodo rural somente agrava os problemas do campo e da própria cidade. Fazem-se, portanto, necessárias algumas medidas para tentar fixar o homem na terra. Assim, os cidadãos rurais e urbanos deste país encontrariam, com certeza, melhores condições de vida.
 (Branca Granatic. O problema das correntes migratórias.
São Paulo, Scipione, 1996.)

Fonte:

AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.

Estrutura do texto dissertativo — A conclusão

A conclusão na redação dissertativa
A conclusão é a parte do texto que sintetiza as ideias desenvolvidas, reafirmando-as de acordo com a tese apresentada na introdução e justificada pela argumentação no desenvolvimento.
Da mesma forma que a introdução e o desenvolvimento, a conclusão também pode ser expressa de várias formas:

Conclusão-resumo
É a maneira mais tradicional de se finalizar um texto dissertativo. É na conclusão-resumo que são reforçadas as ideias apresentadas, resumindo as abordagens feitas ao longo do texto. Exemplo:

Diante de definições equivocadas que têm sido levadas à opinião pública, é importante expor as reais atribuições e ações desenvolvidas pelo Conselho da Comunidade Solidária. O trabalho teve início em 1995 e evoluiu com base na constatação de que a sociedade civil contemporânea se apresenta como parceira indispensável de qualquer governo no enfrentamento da pobreza, das desigualdades e da exclusão social.
Passamos, então, a atuar em três grandes linhas: adotando medidas para o fortalecimento da mesma sociedade civil, desenvolvendo a interlocução política sobre temas sociais com diversos atores e criando programas inovadores. Esses programas, marcados por um novo modelo de gestão, oferecem-se como alternativa viável ao mero assistencialismo, caracterizado pelo ineficiência e obsolescência de políticas centralizadoras. E, se os projetos surgiram pequenos, hoje cresceram de forma significativa. O Alfabetização Solidária, por exemplo, começou a atuar em 1997 com 9.200 alunos em 38 cidades. Este ano estará presente em 866 municípios do Norte e Nordeste e nas regiões metropolitanas de são Paulo e Rio de Janeiro, beneficiando cerca de 800 mil pessoas. [...]
Em resumo, além da promoção do debate e da busca da diversidade de ideias, o conselho está articulando, de modo transparente, recursos de todos os tipos, provenientes do Estado, da iniciativa privada e do setor privado sem fins lucrativos (o terceiro setor). Segmentos que, há pouco, ainda eram considerados incapazes de conviver e mais ainda de atuas conjuntamente a favor do desenvolvimento do país.
(Ruth Corrêa Leite Cardoso. Uma ação social inovadora.

In Folha de S. Paulo, 26/9/1999.)

Conclusão-proposta
A conclusão do tipo proposta é aquela que apresenta algumas possíveis soluções para as situações-problema levantadas no texto. Exemplo:

No Brasil, o que se tem feito é dar bolsas aos estudantes — nunca em número suficiente —, com um sistema que tem dado origem a distorções. Talvez fosse o caso de tentar ajudar diretamente as próprias instituições de ensino superior, desde que baixassem suas anuidades e demonstrassem efetiva melhoria de qualidade na educação e no treinamento que oferecem.
(José Goldemberg. In O Estado de S. Paulo, 17/09/2001.)


Fonte:
AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.
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terça-feira, 15 de julho de 2014

A crônica da letra "C"



Tudo que vicia começa com “C”
(Luiz Fernando Veríssimo)


Por alguma razão que ainda desconheço, minha mente foi tomada por uma ideia um tanto sinistra: vícios.
Refleti sobre todos os vícios que corrompem a humanidade. Pensei, pensei e, de repente, um insight: tudo que vicia começa com a letra c!
De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente iniciava com c.
Inicialmente, lembrei do cigarro que causa mais dependência que muita droga pesada. Cigarro vicia e começa com a letra c. Depois, lembrei das drogas pesadas: cocaína, crack e maconha. Vale lembrar que maconha é apenas o apelido da cannabis sativa que também começa com c.
Entre as bebidas super populares há a cachaça, a cerveja e o café. Os gaúchos até abrem mão do vício matinal do café mas não deixam de tomar seu chimarrão que também - adivinha - começa com a letra c.
Refletindo sobre este padrão, cheguei à resposta da questão que por anos atormentou minha vida: por que a Coca-Cola vicia e a Pepsi não? Tendo fórmulas e sabores praticamente idênticos, deveria haver alguma explicação para este fenômeno. Naquele dia, meu insight finalmente revelara a resposta. É que a Coca tem dois cês no nome enquanto a Pepsi não tem nenhum.
Impressionante, hein?
E o computador e o chocolate? Estes dispensam comentários.
Os vícios alimentares conhecemos aos montes, principalmente daqueles alimentos carregados com sal e açúcar. Sal é cloreto de sódio. E o açúcar que vicia é aquele extraído da cana.
Algumas músicas também causam dependência. Recentemente, testemunhei a popularização de uma droga musical chamada "créeeeeeu". Ficou todo o mundo viciadinho, principalmente quando o ritmo atingia a velocidade... cinco.
Nesta altura, você pode estar pensando: sexo vicia e não começa com a letra c. Pois você está redondamente enganado. Sexo não tem esta qualidade porque denota simplesmente a conformação orgânica que permite distinguir o homem da mulher. O que vicia é o "ato sexual", e este é denominado coito.

Pois é. Coincidências ou não, tudo que vicia começa com c. Mas atenção: nem tudo que começa com c vicia. Se fosse assim, estaríamos salvos pois a humanidade seria viciada em Cultura...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sílabas poéticas

Versificação
é a técnica ou a arte de fazer versos.

1)        Verso é uma linha poética, com número ritmo e a rima.

2)        Metro é a medida ou extensão da linha determinado de sílabas e agradável movimento rítmico. No verso tradicional devemos distinguir: o metro, o poética.
Os poetas de língua portuguesa têm usado, dentro da poética tradicional, doze espécies de versos: de uma até doze sílabas. São relativamente raros os exemplos de versos metrificados que ultrapassam esta medida.
Segundo o número de sílabas, os versos se dizem monossílabos, dissílabos, trissílabos, tetrassílabos, pentassílabos, hexassílabos, heptassílabos, octossílabos, eneassílabos, decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos.
Alguns versos possuem ainda denominações especiais: redondilha menor (cinco sílabas), redondilha maior (sete sílabas), heroico (dez sílabas), alexandrino (doze sílabas).
3)                  As sílabas métricas, i.e., as sílabas dos versos, nem sempre coincidem com as sílabas gramaticais. A contagem das sílabas métricas faz-se auditivamente e subordina-se aos seguintes princípios:
§  Quando duas ou mais vogais se encontram no fim de uma palavra e começo de outra, e podem ser pronunciadas numa só emissão de voz, unem-se numa única sílaba métrica. Exemplos:

          1   2       3        4    5       6        7         8         9    10
“A i|da|de aus|te|ra e | no|bre a | que | che|ga|mos.”   (Alberto de Oliveira)

         1        2          3    4       5       6       7       8       9      10
“A|cha em | lu|gar | da | gló|ria o | lo|do im|pu|ro.”       (Olavo Bilac)

Observações
1ª) Para que tais uniões vocálicas não sejam duras e malsoantes, as vogais (pelo menos a primeira delas) devem ser átonas e não passar de três.

2ª) Não se unem vogais tônicas: sen|ti | ó|dio; es| | ú|mi|do, etc. Nem é aconselhável juntar tônicas com átonas: a|li|o | ve|jo; se||es|po|sa, etc.

§  Ditongos crescentes valem, geralmente, uma só sílaba métrica (de-lí-cia, pie-do-so, tê-nue, per-pé-tuo, sá-bio, quie-to, i-ní-quo);

            1    2    3   4       5     6       7       8     9     10
“O|pe||rio | mo|des|to, a|be|lha | po|bre.”                   (Olavo Bilac)

Observação
      Às vezes, porém, poetas dissolvem ditongos crescentes em hiatos. Esta dissolução denomina-se diérese:
         
           1       2       3   4   5      6     7  8
      “Nem | fez | cas|te|los | gran|di|o|sos

       1      2       3  4   5     6   7   8
      so|bre as | a|rei|as | mo|ve|di|ças?”                   (Cabral do Nascimento)

§  Não se conta(m) a(s) sílaba(s) que segue(m) ao último acentos tônico do verso. Exemplo:

                1       2       3        4         5        6       7      8       9         10
“Quan|do | no | poen|te o | sol | des|do|bra as |clâ|mides        

           1       2        3          4        5       6        7        8        9      10
de | san|gue e | de oi|ro | que | nos | om|bros | le|va.”                (Cabral do Nascimento)

Essa regra só atinge versos graves (os que terminam por palavra paroxítona) e esdrúxulos (os que terminam por palavra proparoxítona). Nos versos agudos (os que terminam por palavra oxítona), contam-se, é óbvio, todas as sílabas, como neste verso:

                      1         2            3           4           5           6          7             8         9        10
“Dei|xa | cor|rer | a | fon|te | da i|lu|são!”           (Cabral do Nascimento)

4)     Quanto aos processos para a redução do número de sílabas métricas, para atender às exigências da métrica, os poetas recorrem à:
crase – fusão de duas vogais numa só:
a alma [al-ma]; o ódio[ó-dio]; foge e grita [fo-ge-gri-ta]

elisão – supressão da vogal átona final de um vocábulo, quando o seguinte começa por vogal:
Ela estava só [e-les-ta-va-só]; duma (por de uma); como um bravo [co-mum-bra-vo]

ditongação – fusão de uma vogal átona final com a seguinte, formando ditongo:
este amor [es-tia-mor], sobre o mar [so-briu-mar], aquela imagem [a-que-lei-ma-gem], moço infeliz [mo-çuin-fe-liz]

sinérese – transformação de um hiato em ditongo, na mesma palavra:
crueldade [cruel-da-de], luar, fiel, magoado [ma-gua-do]

diérese – o inverso da sinérese, ou seja, a dissolução de um ditongo em hiato:
saudade [sa-u-da-de], piedoso [pi-e-do-so]

ectlipse – supressão de um fonema nasal final, para possibilitar a crase ou ditongação:
co, cos, coa, coas (por com o, com os, com a, com as)

aférese – supressão de sílaba ou fonema inicial:
(por até), inda (por ainda), ’stamos (por estamos)

5)     O ritmo resulta da regular sucessão de sílabas átonas ou fracas e de sílabas tônicas ou fortes. É o elemento melódico do verso, tão essencial e indispensável à poesia quanto à música. Juntamente com a rima e as imagens poéticas transmite aos versos um misterioso poder de emoção e encantamento.
Os acentos tônicos, ou sílabas tônicas, devem repetir-se com intervalos regulares, de modo a cadenciar o verso e torna-lo melodioso. Não se distribuem arbitrariamente, mas devem, segundo a espécie do verso, recair em determinadas sílabas, de acordo com os critérios seguintes:
1    1)      Os versos monossílabos, muito raros, têm um só acento tônico ou predominante:

“Pingo
d’água,
pinga,
bate
tua
mágoa!”

               (Cegalla)

“Quem
não
tem
seu

bem
que
não
vem?

                                            Ou
                                            vem
                                            mas

                                            em
                                            vão?
                                           Quem?”
               
                           (Cassiano Ricardo)



2       2)      Os versos dissílabos, pouco frequentes, têm o acento tônico na 2ª sílaba:



“Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso
De luz.”                  (Gonçalves Dias)



“Ao trote
Do baio,
Que doce
Lembrança
O rosto
Da moça
Que mora
Na serra
No rancho
De palha!”              (Ribeiro Couto)



3       3)      Os versos trissílabos requerem o acento predominante na 3ª sílaba, podendo, no entanto, apresentar um acento secundário na 1ª sílaba:

“Vem a aurora
Pressurosa,
Cor-de-rosa,
Que se cora
De carmim.”           (Gonçalves Dias)

4     4)      Os versos tetrassílabos têm, mais frequentemente, os acentos tônicos na 2ª e 4ª sílabas e, menos vezes, na 1ª e 4ª sílabas ou apenas na 4ª sílaba:

“O sol desponta
no horizonte,
Dourando a fonte,
E o prado e o monte,
E o céu e o mar.”                   (Gonçalves Dias)

5      5)      Os versos pentassílabos podem apresentar as seguintes cadências:

dormiram todos. (1ª, 3ª e 5ª sílabas)
ssaros celestes (1ª e 5ª)
me virão cantar (3ª e 5ª)
do lado do mar.” (2ª e 5ª)     (Cecília Meireles)

6      6)      Os versos hexassílabos podem ter os acentos obrigatórios na 6ª sílaba juntamente com uma ou duas das quatro primeiras sílabas:

Ide-vos! Na verdade
Não quero ser assim.
A minha liberdade
Vive dentro de mim.”            (Cabral do Nascimento)

7)      Os heptassílabos admitem as seguintes modalidades rítmicas:

“Surgem velas muito além.” (1ª, 3ª, 5ª e 7ª)
“Todo o tempo me sobeja.” (1ª, 3ª e 7ª)
“Viveria sempre lá.” (3ª, 5ª e 7ª)
“De que tudo acontecesse.” (3ª e 7ª)
“Tudo o que está para trás.” (1ª, 4ª e 7ª)
“O tempo tudo melhora.” (2ª, 4ª e 7ª)
“Ou foi ou jamais começa.” (2ª, 5ª e 7ª)
“Que se prolonga sem pressa.” (4ª e 7ª)             (Cabral do Nascimento)

8     8)      Os octossílabos admitem várias combinações rítmicas, com acentuação na 8ª sílaba e em duas ou três das seis primeiras sílabas:

Quantas grinaldas pelo céu!
Alguém decerto vai casar.”   (Alphonsus de Guimaraens)

“A lua vem, entre as ramagens
Do jardim que dorme na sombra.”       (Ribeiro Couto)

9     9)      Os eneassílabos podem apresentar os acentos tônicos na 3ª, 6ª e 9ª sílabas ou na 4ª e 9ª, com a possibilidade de acento secundário na 1ª sílaba:

“Falam deuses nos cantos do piaga,
Ó guerreiros, meus cantos ouvi.”         (Gonçalves Dias)

“Na tênue casca de verde arbusto
Gravei teu nome, depois parti.
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.”        (Fagundes Varela)

        10)   Os decassílabos admitem duas modalidades rítmicas: 6ª e 10ª sílabas (verso heroico) e 4ª, 8ª e 10ª sílabas (verso sáfico):

“Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo o doce fruto.”   (Luís de Camões)

“Longe do esril turbilhão da rua.”     (Olavo Bilac)

         11)   Os hendecassílabos têm acentuação fixa na 2ª, 5ª, 8ª e 11ª sílabas ou na 5ª e 11ª ou, ainda, na 3ª, 7ª e 11ª:

“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros.”    (Gonçalves Dias)

“Nascem as estrelas, vivas, em cardume.”         (Guerra Junqueiro)

“Alvas talas do rio de tua alma.”    (Hermes Fontes)

1        12)   Os dodecassílabos ou alexandrinos admitem três ritmos diferentes:
1º) alexandrino clássico, com os acentos principais na 6ª e 12ª sílabas:

“Paira, grassa em redor, toda a melancolia
de uma paisagem morta, igual, deserta, imensa.”             (Vicente de Carvalho)

2º) alexandrino moderno, com duas variantes

a)      ritmo quaternário (acentos na 4ª, 8ª e 12ª sílabas):

“É o choro surdo, entrecortado, do batuque,
No bate- que enche de assombro o próprio chão.”            (Cassiano Ricardo)

b)      ritmo ternário (acentos na 3ª, 6ª, 9ª e 12ª sílabas):

“Não me deixas dormir, não me deixas sonhar.”   (Cabral do Nascimento)

O alexandrino clássico é constituído de dois hemistíquios [hemistíquio = meio verso], ou seja, de dois versos de seis sílabas. Obedece às seguintes regras:
1ª) A última palavra do 1º hemistíquio só pode ser oxítona ou paroxítona, nunca proparoxítona:

“E Cipango verás, fabulosa e opulenta.”              (Olavo Bilac)

“Em tudo a fina seta aguda de aflições!”            (Cruz e Sousa)

2ª) Se a última palavra do 1º hemistíquio for paroxítona, deve terminar em vogal e embeber-se na primeira sílaba da palavra seguinte, que, para isso, começará por vogal ou h:

“Palpite a natureza inteira, bela e amante.”       (Vicente de Carvalho)

“Mergulhada na sombra, a montanha mais cresce.”          (Tasso da Silveira)


6)     Quando a pausa final do verso não coincide com a pausa respiratória ou, por outras palavras, quando o verso não finaliza juntamente com um segmento sintático, tem-se o que se chama de encadeamento ou transbordamento, mais conhecido pelo nome francês de enjambement. Em geral, aconselha-se não fazer pausa no fim de tais versos. Todavia, pode-se fazer uma leve pausa, mas conservando a voz suspensa. Exemplo:

“Andam boiando, à superfície
da minha alma, restos
de coisas que eu não sei se, juntas bastariam
para formar a vida... ou se eram só pretextos.” 
(Cabral do Nascimento)



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CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 45 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002.