"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles".

domingo, 20 de julho de 2014

Estrutura do texto dissertativo — A introdução

A introdução na redação dissertativa
A introdução é o início do texto, em que se apresenta o tema e se define a tese. É importante que, desde o começo, se tenha em mente que toda dissertação precisa apresentar uma tese; sua defesa é o motivo pela qual se escreve um texto desse tipo. Em outras palavras, sempre que se escreve um texto dissertativo, tem-se por objetivo defender uma tese.
E o que é defender uma tese? É mostrar para o interlocutor, por meio de dados, argumentos ou provas, qual é a sua posição em relação a determinado assunto e dividir com ele sua opinião, tentando persuadi-lo a pensar como você. Quanto mais objetividade for demonstrada em uma dissertação, mais convincente ela será, pois dessa forma você estará retratando um ponto de vista fundamentado e passível de comprovação, e não apenas a “sua” verdade.
A introdução pode ser iniciada de várias maneiras:

Introdução por afirmação
Veja um exemplo:

Às portas do III Milênio, a máxima filosófica “conhece-te a ti mesmo” nunca esteve tão em voga. De repente, parece que todos se deram conta de que é preciso analisar-se e, especialmente, “autoconhecer-se” para poder progredir, conquistar sonhos, ser feliz, enfim. E na esteira deste tão desejado “autoconhecimento”, como não poderia deixar de ser, cometem-se exageros de toda ordem.
 (Januária Cristina Alves. In revista Classe. 15/3/2000.)


Introdução por citação
Veja um exemplo:

“Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.” Isso é o que reza o artigo VII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas a realidade nos mostra fatos bem diferentes, principalmente se compararmos o tratamento dado ao infrator de colarinho-branco em relação àquele que recebe o cidadão comum que tenha a infelicidade de cair nas “garras” da justiça.


Introdução por pergunta
Veja um exemplo:

Como pode haver paz no mundo se faltam o amor, a tolerância e o respeito pelo outro?


Fonte:

AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.

Estrutura do texto dissertativo — O desenvolvimento

O desenvolvimento na redação dissertativa
Terminada a introdução, é preciso preocupar-se com o desenvolvimento do texto, que deve ser redigido de maneira clara, coerente, concisa e objetiva, mantendo sempre a mesma linha de raciocínio apresentada na introdução.
É importante, neste momento, definir os argumentos a serem usados, fundamentar muito bem as ideias e ter convicção do que se está falando, a fim de receber crédito do leitor e ter seu ponto de vista respeitado.
Ao se justificar esse ponto de vista, convém usar argumentos que tenham valor objetivo, ou seja, que possam ser aceitos por outras pessoas. Por exemplo, ao se afirmar ser necessária uma atitude enérgica e eficaz no combate ao tráfico e uso de drogas, muitos leitores concordarão com essa postura; entretanto, se os argumentos apresentados basearem-se apenas em opiniões pessoais ou mesmo preconceituosas, estar-se-á fazendo um julgamento sobre o assunto e não o analisando objetivamente. Dessa forma, perde-se credibilidade e não se convence o leitor.
No momento de se desenvolver o tema, citações feitas por autoridades, relatos de fatos divulgados pelos meios de comunicação, estatísticas, exemplos e ilustrações poderão ser utilizados para fortalecer a argumentação e dar mais veracidade ao texto. É essa a grande função do desenvolvimento: fundamentar o ponto de vista apresentado na introdução.
O desenvolvimento pode ser elaborado de muitas maneiras diferentes, das quais três serão abordadas aqui:

Desenvolvimento por enumeração
Este tipo de desenvolvimento é muito comum quando se quer expor uma série de características, de funções, de processos, de situações referentes ao tema abordado. Exemplo:

A proximidade das eleições municipais é uma ótima oportunidade para a discussão sobre as condições de vida em nossas cidades. Poluição, congestionamentos de trânsito, lixo, multiplicação de favelas, destruição de rios e lagoas e desmatamento compõem o cotidiano dos grandes centros urbanos. O número de problemas causados pelo desenvolvimento é grande, mas isso não significa que o respeito à ecologia e o progresso não possam andar juntos. O que falta no Brasil é uma vontade política que possibilite ao país rever o seu processo de desenvolvimento, muito destrutivo até agora.
 (Nina de Almeida Braga. Soluções para as cidades. In revista Veja.
 São Paulo, Abril 14/9/1988.)

Desenvolvimento por comparação
Um outro tipo de desenvolvimento possível é o de estabelecer comparações com a intenção de colocar lado a lado ideias, fatos, seres, apontando semelhanças ou contradições entre eles. Exemplo:

[...]Alguns quarteirões adiante posso ver, a distância, um grupo de 15 ou mais jovens, todos parecidos, alguns sentados e outros deitados na grama em uma das saídas do metrô. Esses, claramente, usam drogas. No Brasil seriam chamados de meninos de rua. Aqui recebem o nome de “itinerantes”.
Montreal é a segunda maior cidade do Canadá. Tem mais de 3 milhões de habitantes. Gaba-se de ser multicultural. A imigração daqui é incentivada. Mas não explica a presença desses jovens nas ruas. Os motivos da “itinerância” não são econômicos. São outros. Ao contrário de nossos jovens de rua, os de Montreal não são violentos. A população se sente incomodada mais pelo aspecto e pela presença que por atos infracionais.
(Lígia Costa Leite. In revista Época. São Paulo, Globo, 20/11/2000.)

Desenvolvimento por causa e consequência
Em muitos casos, a introdução do texto dissertativo permite um desenvolvimento que usa uma ou mais relações de causa e consequência. Exemplo:

Todos sabemos que, em nosso país, há muito tempo, observa-se um grande número de grupos migratórios, os quais, provenientes do campo, deslocam-se em direção às cidades, procurando melhores condições de vida.
Ao examinarmos algumas das consequências desse êxodo, verificamos que a zona rural apresenta inúmeros problemas, os quais dificultam a permanência do homem no campo. Podemos mencionar, por exemplo, a seca, a questão da distribuição da terra e a falta de incentivo à atividade agrária por parte do governo.
Em consequência disso, vemos, a todo instante, a chegada desse enorme contingente de trabalhadores rurais ao meio urbano. As cidades encontram-se despreparadas para absorver esses migrantes e oferecer-lhes condições de subsistência e de trabalho. Cresce, portanto, o número de pessoas vivendo à margem dos benefícios oferecidos por uma metrópole; por falta de opção, dirigem-se para as zonas periféricas e ocasionam a proliferação de favelas.
Por tudo isso, só nos resta admitir que a existência do êxodo rural somente agrava os problemas do campo e da própria cidade. Fazem-se, portanto, necessárias algumas medidas para tentar fixar o homem na terra. Assim, os cidadãos rurais e urbanos deste país encontrariam, com certeza, melhores condições de vida.
 (Branca Granatic. O problema das correntes migratórias.
São Paulo, Scipione, 1996.)

Fonte:

AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.

Estrutura do texto dissertativo — A conclusão

A conclusão na redação dissertativa
A conclusão é a parte do texto que sintetiza as ideias desenvolvidas, reafirmando-as de acordo com a tese apresentada na introdução e justificada pela argumentação no desenvolvimento.
Da mesma forma que a introdução e o desenvolvimento, a conclusão também pode ser expressa de várias formas:

Conclusão-resumo
É a maneira mais tradicional de se finalizar um texto dissertativo. É na conclusão-resumo que são reforçadas as ideias apresentadas, resumindo as abordagens feitas ao longo do texto. Exemplo:

Diante de definições equivocadas que têm sido levadas à opinião pública, é importante expor as reais atribuições e ações desenvolvidas pelo Conselho da Comunidade Solidária. O trabalho teve início em 1995 e evoluiu com base na constatação de que a sociedade civil contemporânea se apresenta como parceira indispensável de qualquer governo no enfrentamento da pobreza, das desigualdades e da exclusão social.
Passamos, então, a atuar em três grandes linhas: adotando medidas para o fortalecimento da mesma sociedade civil, desenvolvendo a interlocução política sobre temas sociais com diversos atores e criando programas inovadores. Esses programas, marcados por um novo modelo de gestão, oferecem-se como alternativa viável ao mero assistencialismo, caracterizado pelo ineficiência e obsolescência de políticas centralizadoras. E, se os projetos surgiram pequenos, hoje cresceram de forma significativa. O Alfabetização Solidária, por exemplo, começou a atuar em 1997 com 9.200 alunos em 38 cidades. Este ano estará presente em 866 municípios do Norte e Nordeste e nas regiões metropolitanas de são Paulo e Rio de Janeiro, beneficiando cerca de 800 mil pessoas. [...]
Em resumo, além da promoção do debate e da busca da diversidade de ideias, o conselho está articulando, de modo transparente, recursos de todos os tipos, provenientes do Estado, da iniciativa privada e do setor privado sem fins lucrativos (o terceiro setor). Segmentos que, há pouco, ainda eram considerados incapazes de conviver e mais ainda de atuas conjuntamente a favor do desenvolvimento do país.
(Ruth Corrêa Leite Cardoso. Uma ação social inovadora.

In Folha de S. Paulo, 26/9/1999.)

Conclusão-proposta
A conclusão do tipo proposta é aquela que apresenta algumas possíveis soluções para as situações-problema levantadas no texto. Exemplo:

No Brasil, o que se tem feito é dar bolsas aos estudantes — nunca em número suficiente —, com um sistema que tem dado origem a distorções. Talvez fosse o caso de tentar ajudar diretamente as próprias instituições de ensino superior, desde que baixassem suas anuidades e demonstrassem efetiva melhoria de qualidade na educação e no treinamento que oferecem.
(José Goldemberg. In O Estado de S. Paulo, 17/09/2001.)


Fonte:
AGUIAR, Jaqueline da Silva. Descomplicando a redação / Jaqueline da Silva Aguiar, Ednir Melo Barbosa. — São Paulo: FTD, 2003.
.
.
.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A crônica da letra "C"



Tudo que vicia começa com “C”
(Luiz Fernando Veríssimo)


Por alguma razão que ainda desconheço, minha mente foi tomada por uma ideia um tanto sinistra: vícios.
Refleti sobre todos os vícios que corrompem a humanidade. Pensei, pensei e, de repente, um insight: tudo que vicia começa com a letra c!
De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente iniciava com c.
Inicialmente, lembrei do cigarro que causa mais dependência que muita droga pesada. Cigarro vicia e começa com a letra c. Depois, lembrei das drogas pesadas: cocaína, crack e maconha. Vale lembrar que maconha é apenas o apelido da cannabis sativa que também começa com c.
Entre as bebidas super populares há a cachaça, a cerveja e o café. Os gaúchos até abrem mão do vício matinal do café mas não deixam de tomar seu chimarrão que também - adivinha - começa com a letra c.
Refletindo sobre este padrão, cheguei à resposta da questão que por anos atormentou minha vida: por que a Coca-Cola vicia e a Pepsi não? Tendo fórmulas e sabores praticamente idênticos, deveria haver alguma explicação para este fenômeno. Naquele dia, meu insight finalmente revelara a resposta. É que a Coca tem dois cês no nome enquanto a Pepsi não tem nenhum.
Impressionante, hein?
E o computador e o chocolate? Estes dispensam comentários.
Os vícios alimentares conhecemos aos montes, principalmente daqueles alimentos carregados com sal e açúcar. Sal é cloreto de sódio. E o açúcar que vicia é aquele extraído da cana.
Algumas músicas também causam dependência. Recentemente, testemunhei a popularização de uma droga musical chamada "créeeeeeu". Ficou todo o mundo viciadinho, principalmente quando o ritmo atingia a velocidade... cinco.
Nesta altura, você pode estar pensando: sexo vicia e não começa com a letra c. Pois você está redondamente enganado. Sexo não tem esta qualidade porque denota simplesmente a conformação orgânica que permite distinguir o homem da mulher. O que vicia é o "ato sexual", e este é denominado coito.

Pois é. Coincidências ou não, tudo que vicia começa com c. Mas atenção: nem tudo que começa com c vicia. Se fosse assim, estaríamos salvos pois a humanidade seria viciada em Cultura...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sílabas poéticas

Versificação
é a técnica ou a arte de fazer versos.

1)        Verso é uma linha poética, com número ritmo e a rima.

2)        Metro é a medida ou extensão da linha determinado de sílabas e agradável movimento rítmico. No verso tradicional devemos distinguir: o metro, o poética.
Os poetas de língua portuguesa têm usado, dentro da poética tradicional, doze espécies de versos: de uma até doze sílabas. São relativamente raros os exemplos de versos metrificados que ultrapassam esta medida.
Segundo o número de sílabas, os versos se dizem monossílabos, dissílabos, trissílabos, tetrassílabos, pentassílabos, hexassílabos, heptassílabos, octossílabos, eneassílabos, decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos.
Alguns versos possuem ainda denominações especiais: redondilha menor (cinco sílabas), redondilha maior (sete sílabas), heroico (dez sílabas), alexandrino (doze sílabas).
3)                  As sílabas métricas, i.e., as sílabas dos versos, nem sempre coincidem com as sílabas gramaticais. A contagem das sílabas métricas faz-se auditivamente e subordina-se aos seguintes princípios:
§  Quando duas ou mais vogais se encontram no fim de uma palavra e começo de outra, e podem ser pronunciadas numa só emissão de voz, unem-se numa única sílaba métrica. Exemplos:

          1   2       3        4    5       6        7         8         9    10
“A i|da|de aus|te|ra e | no|bre a | que | che|ga|mos.”   (Alberto de Oliveira)

         1        2          3    4       5       6       7       8       9      10
“A|cha em | lu|gar | da | gló|ria o | lo|do im|pu|ro.”       (Olavo Bilac)

Observações
1ª) Para que tais uniões vocálicas não sejam duras e malsoantes, as vogais (pelo menos a primeira delas) devem ser átonas e não passar de três.

2ª) Não se unem vogais tônicas: sen|ti | ó|dio; es| | ú|mi|do, etc. Nem é aconselhável juntar tônicas com átonas: a|li|o | ve|jo; se||es|po|sa, etc.

§  Ditongos crescentes valem, geralmente, uma só sílaba métrica (de-lí-cia, pie-do-so, tê-nue, per-pé-tuo, sá-bio, quie-to, i-ní-quo);

            1    2    3   4       5     6       7       8     9     10
“O|pe||rio | mo|des|to, a|be|lha | po|bre.”                   (Olavo Bilac)

Observação
      Às vezes, porém, poetas dissolvem ditongos crescentes em hiatos. Esta dissolução denomina-se diérese:
         
           1       2       3   4   5      6     7  8
      “Nem | fez | cas|te|los | gran|di|o|sos

       1      2       3  4   5     6   7   8
      so|bre as | a|rei|as | mo|ve|di|ças?”                   (Cabral do Nascimento)

§  Não se conta(m) a(s) sílaba(s) que segue(m) ao último acentos tônico do verso. Exemplo:

                1       2       3        4         5        6       7      8       9         10
“Quan|do | no | poen|te o | sol | des|do|bra as |clâ|mides        

           1       2        3          4        5       6        7        8        9      10
de | san|gue e | de oi|ro | que | nos | om|bros | le|va.”                (Cabral do Nascimento)

Essa regra só atinge versos graves (os que terminam por palavra paroxítona) e esdrúxulos (os que terminam por palavra proparoxítona). Nos versos agudos (os que terminam por palavra oxítona), contam-se, é óbvio, todas as sílabas, como neste verso:

                      1         2            3           4           5           6          7             8         9        10
“Dei|xa | cor|rer | a | fon|te | da i|lu|são!”           (Cabral do Nascimento)

4)     Quanto aos processos para a redução do número de sílabas métricas, para atender às exigências da métrica, os poetas recorrem à:
crase – fusão de duas vogais numa só:
a alma [al-ma]; o ódio[ó-dio]; foge e grita [fo-ge-gri-ta]

elisão – supressão da vogal átona final de um vocábulo, quando o seguinte começa por vogal:
Ela estava só [e-les-ta-va-só]; duma (por de uma); como um bravo [co-mum-bra-vo]

ditongação – fusão de uma vogal átona final com a seguinte, formando ditongo:
este amor [es-tia-mor], sobre o mar [so-briu-mar], aquela imagem [a-que-lei-ma-gem], moço infeliz [mo-çuin-fe-liz]

sinérese – transformação de um hiato em ditongo, na mesma palavra:
crueldade [cruel-da-de], luar, fiel, magoado [ma-gua-do]

diérese – o inverso da sinérese, ou seja, a dissolução de um ditongo em hiato:
saudade [sa-u-da-de], piedoso [pi-e-do-so]

ectlipse – supressão de um fonema nasal final, para possibilitar a crase ou ditongação:
co, cos, coa, coas (por com o, com os, com a, com as)

aférese – supressão de sílaba ou fonema inicial:
(por até), inda (por ainda), ’stamos (por estamos)

5)     O ritmo resulta da regular sucessão de sílabas átonas ou fracas e de sílabas tônicas ou fortes. É o elemento melódico do verso, tão essencial e indispensável à poesia quanto à música. Juntamente com a rima e as imagens poéticas transmite aos versos um misterioso poder de emoção e encantamento.
Os acentos tônicos, ou sílabas tônicas, devem repetir-se com intervalos regulares, de modo a cadenciar o verso e torna-lo melodioso. Não se distribuem arbitrariamente, mas devem, segundo a espécie do verso, recair em determinadas sílabas, de acordo com os critérios seguintes:
1    1)      Os versos monossílabos, muito raros, têm um só acento tônico ou predominante:

“Pingo
d’água,
pinga,
bate
tua
mágoa!”

               (Cegalla)

“Quem
não
tem
seu

bem
que
não
vem?

                                            Ou
                                            vem
                                            mas

                                            em
                                            vão?
                                           Quem?”
               
                           (Cassiano Ricardo)



2       2)      Os versos dissílabos, pouco frequentes, têm o acento tônico na 2ª sílaba:



“Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso
De luz.”                  (Gonçalves Dias)



“Ao trote
Do baio,
Que doce
Lembrança
O rosto
Da moça
Que mora
Na serra
No rancho
De palha!”              (Ribeiro Couto)



3       3)      Os versos trissílabos requerem o acento predominante na 3ª sílaba, podendo, no entanto, apresentar um acento secundário na 1ª sílaba:

“Vem a aurora
Pressurosa,
Cor-de-rosa,
Que se cora
De carmim.”           (Gonçalves Dias)

4     4)      Os versos tetrassílabos têm, mais frequentemente, os acentos tônicos na 2ª e 4ª sílabas e, menos vezes, na 1ª e 4ª sílabas ou apenas na 4ª sílaba:

“O sol desponta
no horizonte,
Dourando a fonte,
E o prado e o monte,
E o céu e o mar.”                   (Gonçalves Dias)

5      5)      Os versos pentassílabos podem apresentar as seguintes cadências:

dormiram todos. (1ª, 3ª e 5ª sílabas)
ssaros celestes (1ª e 5ª)
me virão cantar (3ª e 5ª)
do lado do mar.” (2ª e 5ª)     (Cecília Meireles)

6      6)      Os versos hexassílabos podem ter os acentos obrigatórios na 6ª sílaba juntamente com uma ou duas das quatro primeiras sílabas:

Ide-vos! Na verdade
Não quero ser assim.
A minha liberdade
Vive dentro de mim.”            (Cabral do Nascimento)

7)      Os heptassílabos admitem as seguintes modalidades rítmicas:

“Surgem velas muito além.” (1ª, 3ª, 5ª e 7ª)
“Todo o tempo me sobeja.” (1ª, 3ª e 7ª)
“Viveria sempre lá.” (3ª, 5ª e 7ª)
“De que tudo acontecesse.” (3ª e 7ª)
“Tudo o que está para trás.” (1ª, 4ª e 7ª)
“O tempo tudo melhora.” (2ª, 4ª e 7ª)
“Ou foi ou jamais começa.” (2ª, 5ª e 7ª)
“Que se prolonga sem pressa.” (4ª e 7ª)             (Cabral do Nascimento)

8     8)      Os octossílabos admitem várias combinações rítmicas, com acentuação na 8ª sílaba e em duas ou três das seis primeiras sílabas:

Quantas grinaldas pelo céu!
Alguém decerto vai casar.”   (Alphonsus de Guimaraens)

“A lua vem, entre as ramagens
Do jardim que dorme na sombra.”       (Ribeiro Couto)

9     9)      Os eneassílabos podem apresentar os acentos tônicos na 3ª, 6ª e 9ª sílabas ou na 4ª e 9ª, com a possibilidade de acento secundário na 1ª sílaba:

“Falam deuses nos cantos do piaga,
Ó guerreiros, meus cantos ouvi.”         (Gonçalves Dias)

“Na tênue casca de verde arbusto
Gravei teu nome, depois parti.
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.”        (Fagundes Varela)

        10)   Os decassílabos admitem duas modalidades rítmicas: 6ª e 10ª sílabas (verso heroico) e 4ª, 8ª e 10ª sílabas (verso sáfico):

“Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo o doce fruto.”   (Luís de Camões)

“Longe do esril turbilhão da rua.”     (Olavo Bilac)

         11)   Os hendecassílabos têm acentuação fixa na 2ª, 5ª, 8ª e 11ª sílabas ou na 5ª e 11ª ou, ainda, na 3ª, 7ª e 11ª:

“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros.”    (Gonçalves Dias)

“Nascem as estrelas, vivas, em cardume.”         (Guerra Junqueiro)

“Alvas talas do rio de tua alma.”    (Hermes Fontes)

1        12)   Os dodecassílabos ou alexandrinos admitem três ritmos diferentes:
1º) alexandrino clássico, com os acentos principais na 6ª e 12ª sílabas:

“Paira, grassa em redor, toda a melancolia
de uma paisagem morta, igual, deserta, imensa.”             (Vicente de Carvalho)

2º) alexandrino moderno, com duas variantes

a)      ritmo quaternário (acentos na 4ª, 8ª e 12ª sílabas):

“É o choro surdo, entrecortado, do batuque,
No bate- que enche de assombro o próprio chão.”            (Cassiano Ricardo)

b)      ritmo ternário (acentos na 3ª, 6ª, 9ª e 12ª sílabas):

“Não me deixas dormir, não me deixas sonhar.”   (Cabral do Nascimento)

O alexandrino clássico é constituído de dois hemistíquios [hemistíquio = meio verso], ou seja, de dois versos de seis sílabas. Obedece às seguintes regras:
1ª) A última palavra do 1º hemistíquio só pode ser oxítona ou paroxítona, nunca proparoxítona:

“E Cipango verás, fabulosa e opulenta.”              (Olavo Bilac)

“Em tudo a fina seta aguda de aflições!”            (Cruz e Sousa)

2ª) Se a última palavra do 1º hemistíquio for paroxítona, deve terminar em vogal e embeber-se na primeira sílaba da palavra seguinte, que, para isso, começará por vogal ou h:

“Palpite a natureza inteira, bela e amante.”       (Vicente de Carvalho)

“Mergulhada na sombra, a montanha mais cresce.”          (Tasso da Silveira)


6)     Quando a pausa final do verso não coincide com a pausa respiratória ou, por outras palavras, quando o verso não finaliza juntamente com um segmento sintático, tem-se o que se chama de encadeamento ou transbordamento, mais conhecido pelo nome francês de enjambement. Em geral, aconselha-se não fazer pausa no fim de tais versos. Todavia, pode-se fazer uma leve pausa, mas conservando a voz suspensa. Exemplo:

“Andam boiando, à superfície
da minha alma, restos
de coisas que eu não sei se, juntas bastariam
para formar a vida... ou se eram só pretextos.” 
(Cabral do Nascimento)



____
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 45 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Literatura Palaciana

Auto da Alma
Gil Vicente


Estudo do texto:
O texto é uma peça do Período Medieval e se classifica como sendo da Literatura Palaciana, e pode ser acessado na íntegra em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000106.pdf

Antes dos textos de Gil Vicente as formas de representação eram os momos, os arremedilhos e os entremezes. Suas personagens características se dividem em populares, fantásticas e alegóricas. Neste auto vicentino contendo aproximadamente 800 versos divididos em catorze estrofes, sendo importante observar que o escritor troca os decassílabos pelas redondilhas maiores ou até mesmo por versos menores.
Os leitores se deparam com uma peça medieval em o autor põe para contracenar personagens místicas e alegóricas para representar o conflito entre o bem (o anjo) e o mal (o Diabo).
Sem fazer indicação dos ambientes, o que se vê é uma ambientação irreal. Quanto ao tempo, este é o mesmo que o da duração das ações das pessoas.


terça-feira, 24 de junho de 2014

E escola que temos e a escola que queremos


O outro eu da escola

Quando entro,
A escola, pronta
As aulas, prontas
As atividades, prontas
Os programas, prontos
A avaliação, pronta.

Percebo, então
Que um outro está ali
Não eu!

Ao ingressar nessa escola
Ao entrar nessa sala
Ao aterrissar nesse currículo
Descubro-me apenas isto:
Um estranho, um hóspede,
Como qualquer hóspede
Em qualquer hotel.

Nessa escola, a matrícula
Não é minha radiografia
É a ficha de hóspede
Do hotel em que ingressei
Como se fosse uma escola.

Por isso, quem está ali
Não sou eu
Não sou eu inteiro, integral.

Quem está ali
É o outro, o que entrou
Nas estatísticas da escola
Mas não em suas aulas.

A escola não me recebeu
Deixou entrar um outro
Estranho, desconhecido
Parecido comigo
Mas bem distante de mim.

Eu o entrevejo
Nos registros da escola
Nas atividades da escola
Mas não o vejo em meus registros
Nem o encontro em minha vida.

Que bom seria se a escola
Não me impusesse uma segunda natureza
Me assistisse para eu mesmo me recriar.

Que bom seria se a escola
Deixasse o outro de lado
E me abraçasse, eu mesmo
Em minha identidade inelegível.



Fonte: CARNEIRO, M. A. A escola sem paredes. São Paulo: Escrituras Editora, 2002.
.
.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Exercícios de ortografia e flexão verbal

.
História de passarinho

Um ano depois os moradores do bairro ainda se lembravam do homem de cabelo ruivo que (1) ___________ e sumiu de casa.
Ele era um santo, disse a mulher (2) ___________ os braços. E as pessoas em redor não (3) ___________ nada nem era preciso, perguntar o que se todos já sabiam que era um bom homem que de repente abandonou casa, emprego no cartório, o filho único, tudo. E se mandou Deus sabe para onde.
Só pode ter enlouquecido, sussurrou a mulher, e as pessoas tinham que se aproximar inclinando a cabeça para ouvir melhor. Mas de uma coisa estou certa, tudo começou com aquele passarinho, começou com o passarinho. Que o homem ruivo não sabia se era um canário ou um pintassilgo. Ô! Pai, (4) _________ o filho, que raio de passarinho é esse que você foi arrumar?!
O homem ruivo (5) __________ o dedo entre as grades da gaiola e ficava acariciando a cabeça do passarinho que por essa época era um filhote todo arrepiado, escassa a plumagem amarelo-pálido com algumas peninhas de um cinza-claro.
Não sei, filho, deve ter caído de algum ninho, (6) ________ ele na rua, não sei que passarinho é esse.
O menino (7) __________ chicle. Você não sabe nada mesmo, Pai, nem marca de carro, nem marca de cigarro, nem marca de passarinho, você não sabe nada.
Em verdade, o homem ruivo sabia bem poucas coisas. Mas de uma coisa ele (8) ___________ certo, é que naquele instante gostaria de estar em qualquer parte do mundo, mas em qualquer parte mesmo, menos ali. Mais tarde, quando o passarinho (9) ________, o homem ruivo ficou sabendo também o quanto ambos se pareciam, o passarinho e ele.
Ai! O canto desse passarinho, (10) __________ a mulher, Você quer mesmo me atormentar, Velho. O menino esticava os beiços tentando fazer rodinhas com a fumaça do cigarro que subia para o teto: Bicho mais chato, Pai. Solta ele.
Antes de sair para o trabalho o homem ruivo (11) __________ ficar algum tempo olhando o passarinho que desatava a cantar, as asas trêmulas ligeiramente abertas, ora pousando num pé, ora noutro e cantando como se não (12) _________ parar nunca mais. O homem então enfiava a ponta do dedo entre as grades, era despedida e o passarinho, emudecido, vinha meio encolhido oferecer-lhe a cabeça para carícia. Enquanto o homem se afastava, o passarinho se atirava meio às cegas contra as grades, fugir, fugir! Algumas vezes, o homem assistiu a essas tentativas que (13) __________ o passarinho tão cansado, o peito palpitante, o bico ferido. Eu sei, você quer ir embora, você quer ir embora, mas não pode ir, lá fora é diferente e agora é tarde demais.
A mulher (14) __________ então a falar e falava uns cinquenta minutos sobre as coisas todas que (15) ______ ter e que o homem ruivo não lhe dera, não esquecer aquela viagem para Pocinhos do Rio Verde e o Trem Prateado descendo pela noite até o mar. Esse mar que se não (16) _______ o Pai (que Deus o tenha!) ela jamais teria conhecido porque em negra hora casara com um homem que não prestava para nada, Não sei mesmo onde estava com a cabeça quando me casei com você, Velho.
Ele continuava com o livro aberto no peito, (17) ________ muito de ler. Quando a mulher baixava o tom de voz, ainda furiosa (mas sem saber mais a razão de tanta fúria), o homem ruivo fechava o livro e ia conversar com o passarinho que se punha tão manso que se abrisse a portinhola poderia colhê-lo na palma da mão. Decorridos os cinquenta minutos das queixas, e como ele não respondia mesmo, ela se calava exausta. Puxava-o pela manga, afetuosa: Vai, Velho, o café está esfriando, nunca pensei que nesta idade eu fosse trabalhar tanto assim. O homem ia tomar o café. Numa dessas vezes, (18) ________ de fechar a portinhola e quando voltou com o pano preto para cobrir a gaiola (era noite) a gaiola estava vazia. Ele então (19) ________ no degrau de pedra da escada e ali ficou pela madrugada, fixo na escuridão. Quando amanheceu, o gato da vizinha desceu o muro, aproximou-se da escada onde estava o homem ruivo e ficou ali estirado, a se espreguiçar sonolento de tão feliz. Por entre o pelo negro do gato desprendeu-se uma pequenina pena amarelo-acinzentada que o vento delicadamente fez voar. O homem inclinou-se para colher a pena entre o polegar e o indicador. Mas não disse nada, nem mesmo quando o menino que presenciara a cena desatou a rir, Passarinho mais besta! Fugiu e acabou aí, na boca do gato.
Calmamente, sem a menor pressa o homem ruivo guardou a pena no bolso do casaco e levantou-se com uma expressão tão estranha que o menino parou de rir para ficar olhando. Repetiria depois à Mãe, Mas ele até que parecia contente, Mãe, juro que o Pai parecia contente, juro! A mulher então interrompeu o filho num sussurro, Ele ficou louco.
Quando formou-se a roda de vizinhos, o menino voltou a contar isso tudo mas não achou importante contar aquela coisa que descobriu de repente: o Pai era um homem alto, nunca (20) _______ reparado antes como ele era alto. Não contou também que estranhou o andar do Pai, firme e reto, mas por que ele andava agora desse jeito? E repetiu o que todos já sabiam, que quando o Pai saiu, deixou o portão aberto e não olhou para trás.

TELLES, Lygia Fagundes. In: Invenção e memória. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.



Exercícios
Assinale a alternativa que preencha corretamente cada lacuna:

(1)               enlouquecera              enlouqueceu               enlouquecia
(2)               levantando                  levantou                      levantara
(3)               perguntou                   perguntava                  perguntaram   
(4)               cassoava                     caçoava                       casouava
(5)               introduzia                   introduzira                  introduz
(6)               pegava                        peguei                         pegarei
(7)               mascava                      mascaria                      mascando
(8)               estive                          esteve                         estava
(9)               crescia                         cresceu                        esteve crescido          
(10)      queixara-se                 queixava-se                 queixavasse
(11)      costumou                    costumava                  costumara
(12)      pode-se                       pudesse                       pude-se
(13)      deixava                       deixa                           deixavam
(14)      punha-se                     punhasse                     ponhasse
(15)      quis                             quiz                             quer
(16)      fo-se                           foce                            fosse
(17)      gostou                                    gostávamos                 gostava
(18)      esqueceu                     esquecia                      esquece
(19)      sentousse                    sentosse                      sentou-se
(20)      teve                             tinha                           tinha
.
.
.